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Agroecología y anarquismo organizado Feb 04 21 by A member of BRRN's NYC local

Agroecology and Organized Anarchism: An Interview With the Anarchist F... Feb 04 21 by A member of Black Rose Anarchist Federation’s New York City Local

Agroecologia e Anarquismo Organizado

category brazil/guyana/suriname/fguiana | ambiente | entrevista author Thursday February 04, 2021 19:25author by Militante de BRRN - Black Rose Anarchist Federation Report this post to the editors

Uma Entrevista com a Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

Em resposta ao modelo industrial capitalista de produção de alimentos que dizimou modos de vida rurais e nossa mãe Terra, movimentos sociais ao redor do mundo identificaram a agroecologia como sua proposta alternativa para o desenvolvimento rural. Baseadas em conhecimentos camponeses e indígenas, lutas pela soberania alimentar e reforma agrária, a agroecologia é compreendida pelos movimentos sociais como “uma ferramenta para a transformação social, econômica, cultural, política e ecológica de comunidades e territórios.”

Esta entrevista que o Rosa Negra conduziu no Verão de 2020 [no hemisfério norte] com um militante da Frente de Luta Camponesa da Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ), mostra seu trabalho com a luta de alguns movimentos sociais brasileiros por agroecologia e soberania alimentar. Em um contexto de movimentos sociais camponeses altamente desenvolvidos, a FARJ compartilha questões importantes para o aprendizado dos militantes anarquistas.

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Agroecologia e Anarquismo Organizado:
Uma Entrevista com a Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

Em resposta ao modelo industrial capitalista de produção de alimentos que dizimou modos de vida rurais e nossa mãe Terra, movimentos sociais ao redor do mundo identificaram a agroecologia como sua proposta alternativa para o desenvolvimento rural. Baseadas em conhecimentos camponeses e indígenas, lutas pela soberania alimentar e reforma agrária, a agroecologia é compreendida pelos movimentos sociais como “uma ferramenta para a transformação social, econômica, cultural, política e ecológica de comunidades e territórios.”

Esta entrevista que o Rosa Negra conduziu no Verão de 2020 [no hemisfério norte] com um militante da Frente de Luta Camponesa da Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ), mostra seu trabalho com a luta de alguns movimentos sociais brasileiros por agroecologia e soberania alimentar. Em um contexto de movimentos sociais camponeses altamente desenvolvidos, a FARJ compartilha questões importantes para o aprendizado dos militantes anarquistas.

BRRN: Você pode dar uma visão geral do tipo de trabalho social dxs militantes da Frente de Luta Camponesa da FARJ? Quais são os movimentos e organizações em que xs militantes participam/colaboram? Quem são xs protagonistas desses movimentos/organizações?

FARJ: Inicialmente a Frente se chamava “Anarquismo e Natureza”. Em sua composição haviam estudantes da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. A partir de um grupo de agroecologia da universidade, o GAE (Grupo de Agricultura Ecológica), buscavam fazer trabalhos sociais em assentamentos da Reforma Agrária do estado do Rio e com famílias de pequenos agricultores. E o espaço que articulava estas atividades era a Articulação de Agroecologia do Rio de Janeiro.

A partir dessa atuação e contato frequente nos assentamentos o MST foi conhecendo o estilo de trabalho de nossa militância, até que um deles foi convidado para ingressar no movimento, contribuindo principalmente com os processos de organização do trabalho cooperado na região da Baixada Fluminense. Um dos resultados desse trabalho foi a contribuição na organização de uma cooperativa de comercialização de um assentamento do MST da região metropolitana do estado do Rio, por volta de 2008. Com o passar do tempo a frente foi agregando mais militantes, alguns vieram do campo, ou do MST, ou eram estudantes do campo agrário.

Por volta de 2012 o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) chega no Rio, e temos militantes de nossa frente contribuindo também com o movimento e sua construção no estado. Temos também uma companheira que atua na Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Nosso trabalho nos movimentos e espaços do campo está relacionado a temas como educação do campo, formação, comunicação, produção, comercialização, direitos humanos. Buscamos manter sempre o vínculo com as bases dos movimentos, mesmo aqueles militantes que vivem na capital do estado ou na cidade. Buscamos contribuir com os acúmulos da FARJ e das experiências históricas do anarquismo organizado nas lutas camponesas, com nossa concepção de trabalho social e estilo militante buscando construir Poder Popular. Estimulando a participação política e o protagonismo das bases nos processos de luta quotidianos dos movimentos. Buscamos também estimular aproximações e ações conjuntas entre os movimentos do campo e movimentos urbanos onde também atuamos ou que apoiamos, como ações de solidariedade, ações de trocas de experiências entre as bases, visitas, campanhas, entre outras que possibilitem os contatos entre as bases.

Hoje temos militantes no MST, MPA e CPT. Os protagonistas são sem terras, pequenos agricultores, comunidades quilombolas. Muitos assentados, por exemplo, vêm da indústria da cana de açúcar, de trabalho análogo à escravidão, vêm de favelas, eram trabalhadores precarizados. Boa parte das bases dos movimentos são de negros e negras, jovens, mulheres.

BRRN: Pode falar sobre como você se envolveu nas lutas camponesas e movimentos para soberania alimentar e agroecologia? Porque você acha que é importante xs anarquistas se envolverem nessas lutas? Qual é a importância dessas lutas nesse momento de pandemia global de Covid-19 em particular?

FARJ: Minha militância era na Frente Comunitária, no Movimento de Organização de Base, que atualmente tem trabalhos no Centro de Cultura Social e na comunidade do Morro dos Macacos. Desde 2013 apoiava o MST com as artes gráficas da Feira Estadual da Reforma Agrária Cícero Guedes, uma feira anual, durante 3 dias, no Centro da Cidade do Rio de Janeiro com a produção do estado, da região sudeste, parceiros da cidade e outros movimentos. Por volta de 2014 o MPA e o MST iniciam uma feira quinzenal no campus da Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que também passo a apoiar com comunicação e outras atividades. Então a partir destas aproximações e contatos que se apresentam as possibilidades de atuação a partir da capital, seja com as demandas de comunicação e propaganda, seja contribuindo para a organização de espaços de comercialização dos movimentos na cidade. E sempre buscando manter a vinculação com as bases.

Historicamente o anarquismo esteve, e está, presente nas lutas camponesas: Manchúria, Ucrânia, Espanha, Peru e outros exemplos. O anarquismo deve estar nas lutas dos de baixo, e onde tivermos espaço para contribuir com nossas propostas e construir poder popular. As questões agrária, fundiária (acesso e concentração de terras), camponesa, indígenas, negra, quilombola são centrais na América Latina, apesar da concentração populacional nas grandes cidades. Em grande parte somos países agrário exportadores, de grande exploração de bens naturais pelo capital, que tem um povo de origem e base indígena, negra e camponesa muito forte, com uma extrema concentração de terras nas mãos de capitalistas, latifundiários, estrangeiros. Há muitos conflitos no campo, com assassinatos de lideranças comunitárias e militantes, expulsões, despejos etc. Sem falar na questão da soberania alimentar, na produção de alimentos para o povo em oposição ao modelo do agronegócio que produz commodities para exportação. Então a questão da terra é muito forte no Brasil e no continente, e daí a importância de estarmos inseridos também nestas lutas. Entendendo que mesmo com pautas particulares, as lutas do campo e da cidade devem ser conjuntas.

Também aprendemos muito nestes movimentos de massa, contribuindo para nossa formação de militantes, principalmente no trabalho de base. Seja em cursos, materiais e espaços de formação dos movimentos, seja no dia a dia do trabalho de base.

Atualmente, na conjuntura de COCID-19 os movimentos do campo tem grande importância por produzirem alimentos saudáveis para a população, por pautarem a questão ambiental, energética e de soberania alimentar. Há análises que apontam uma “pandemia” de falta de alimentos para população. Muitas favelas já apresentam pessoas em situação de fome. Estão acontecendo muitas campanhas de solidariedade e distribuição de cestas de alimentos para moradores de favelas e marmitas para moradores de rua. Sindicatos e pessoas estão fazendo doações para a compra destes alimentos dos movimentos do campo e de movimentos de agricultura urbana da cidade do Rio. Ou seja, as ações de solidariedade se multiplicaram, e organizadas pela população e movimentos sociais.

BRRN: Qual tem sido sua experiência como umx anarquista participando em/colaborando com estes movimentos? Como você pressiona por dentro desses movimentos/organizações por práticas mais anti-autoritárias/anarquistas?

FARJ: Avaliamos que a experiência, aqui no Rio de Janeiro, possibilita abertura para atuarmos. Aspecto da formação na prática também, ao participarmos de movimentos de massa como estes, contribuindo para a organização de processos coletivos. Há o contato com o povo, com realidades e problemas concretos, e a necessidade de pensar formas de solucionar os problemas a partir do trabalho de base. Há também os processos formais de formação, como cursos nacionais e locais, visitas a experiências de outros estados, encontros estaduais e nacionais. Formações específicas em alguma temática ou mesmo no cotidiano, no convívio com outros/as militantes e companheiros.

Por exemplo, por causa das tarefas e formações dos movimentos pude aprender sobre comunicação, sobre gestão e cooperação agroecológica. Além do debate da questão agrária e alimentar. Estes acúmulos também trazemos para a organização política, no sentido de qualificar e contribuir nos acúmulos de formação que temos para o conjunto de nossa militância. Ou seja, é uma via de mão dupla, um processo dialético. Adaptando para a formação e interesse de nossa organização. Então é importante que não seja somente um acúmulo individual, mas que ajude de alguma forma na formação do conjunto da militância da organização específica.

Aqui no estado do Rio, acredito que a maioria dos desafios comuns ao movimentos sociais, do campo e da cidade, são da própria dificuldade de organizar o trabalho de base, muitas vezes a necessidade de se ter mais militantes, a dificuldade em conseguir recursos e estrutura, as dificuldades organizativas. Há também dificuldades em uma articulação mais consolidada entre os diversos movimentos sociais, que acabam ocorrendo de forma mais pontual ou em campanhas. E diante de uma realidade de avanço do ultraliberalismo e a sistemática extinção de políticas e direitos sociais, é um desafio permanente a construção de processos que consigam se autogerir e mobilizar o povo nas comunidades e locais de trabalho de base. Mas de forma geral buscamos ajudar a organizar o que está desorganizado, atuando como fermento nas lutas de massa.

BRRN: Na entrevista que a FARJ deu ao Zabalaza [organização anarquista da África do Sul], foi mencionada a Associação de Produtores Autônomos da Cidade e do Campo (APAC). Estou muito curioso de saber mais sobre esta organização, o seu trabalho, e como esta associação constrói solidariedade entre a cidade e do campo em torno de perguntas de soberania alimentar e terra.

FARJ: A APAC teve importante atuação produzindo implementos agrícolas voltados para pequenos produtores. Sua origem veio do CADTS – Centro de Aprendizagem e Desenvolvimento Técnico e Social um grupo ligado a Pastorais Sociais que atuavam com educação de trabalhadores urbanos, formando politicamente eletricistas, costureiras, torneiros mecânicos, gráficos dentre outros oficios. Desse trabalho se fortaleceu a atuação dos mesmos nos campos sindicais, e comunitários. Com o objetivo de fortalecer a solidariedade entre os trabalhadores do campo e da cidade o CADTS inciou um projeto de elaboração de implementos agrícolas com tecnologia construída juntos aos “lavradores da terra”, expressão usada na época, em suas visitas aos trabalhadores do campo para coletar as informações e projetar os implementos os estudantes do CADTS decidiram por estruturar esse trabalhos para atender essa demanda que já produzia para diversos grupos de agricultores de todo o Brasil. Assim nasce no 1 de Maio a APAC reunindo não só “metalúrgicos”, como também agricultores, donas de casas, desempregados, educadores populares e etc. Com a organicidade de associação compostas por diversos grupos de trabalhos autônomos que se articulação coletivamente em assembleia geral inspirados pela autogestão. Ao longo de mais de 30 anos desde a sua fundação a APAC já acolheu muitos grupos de trabalhadores citaremos apenas alguns para ilustrar a diversidade:

• Multimetal: Confecção de peças e equipamentos em metal, de onde surgiram vários equipamentos para o campo. Depois de alguns anos substituída pela OPMAC, que remete à palavra “campo”, continuando esses serviços de projetos em metal e que com o tempo passou a desenvolver projetos para trabalhadores urbanos como carroças adaptadas para catadores para reciclagem, fabrica de vassouras recicladas etc.
• Arte Fuxico: Reunindo artesãs que reaproveitavam sobras de tecidos da industria de roupa e elaboravam peças customizadas como bolsas, tapetes e utensílios em geral.
• Pré-Vestibular Comunitário: Inciativa de educação popular que buscou espaço na APAC para montar turma de curso preparatório ao ingresso nas universidades. O núcleo do curso na APAC durou alguns anos e fazia parte de uma rede de cursos comunitários de diversas regiões.
• Mecânica de Autos: Oficina de conserto de automóveis que reunia um mestre mecânico e seus ajudantes. O grupo prestava serviços internos e externos a APAC e com atuação muito marcante no ensino do ofício de mecânico e assiduidade nas assembleias da associação.
• Gravida: Gráfica que reunia trabalhadores em grande parte oriundos das formações do CADTS que elaboravam projetos gráficos e editações de inúmeras publicações para movimentos sociais e diversos serviços externos.
Nossa chegada à APAC foi paralela a fundação da FARJ, e temos alguns militantes que tiveram e têm relações mais próximas com eles. Seja em projetos desenvolvidos e alguns fazendo parte da gestão da APAC. Chegamos a fazer uma oficina de serigrafia lá, reuniões politicas, mutirões de trabalhos na comunidade, palestras de formação politica e curso popular de idiomas. Destacaremos uma das inciativas mais estruturada de nossa militância que foi organizar a Cooperativa de Trabalhadores e Trabalhadoras em Agroecologia Floreal, onde tivemos grande interação com os grupos internos da APAC trazendo pautas debatidas com nossa atuação com o Fórum de Cooperativismo Popular, a Articulação de Agroecologia do Rio de Janeiro e setores de Assistência Técnica e Extensão. Foi um período que trouxe ânimo na APAC de contribuir com questões da conjuntura agraria, Agroecologia, Agricultura Urbana, Hortas Escolares, Grupos de Fitoterapia Popular, Ecologia Social, Solidariedade do Campo e Cidade e Soberania Alimentar e Reforma Agrária. Fator que fortaleceu a relação de nossos militantes com os movimentos sociais do campo como MST, CPT, e MPA também seja para o uso do espaço como entreposto ou sobre a fabricação de implementos agrícolas. Mas que nossa experiência com cooperativismo popular abriu portas para contribuirmos na construção de cooperativas e associações nos movimentos.

BRRN: Vocês estão envolvidos com os Comitês Territoriais de Solidariedade, organizados pelo MPA como uma resposta à crise social atual? Pode compartilhar um pouco sobre este projeto?

FARJ: Nesse contexto do COVID-19 os movimentos do campo, como MPA e MST, a CPT e grupos de agricultura urbana como a Rede Carioca de Agricultura Urbana, e a Articulação de Agroecologia, têm desenvolvidos ações de solidariedade no campo e na cidade.

O MPA está com os Comitês Territoriais de Solidariedade. Com a distribuição de alimentos agroecológicos, criando espaços de diálogo e debates políticos fortalecendo os processos organizativos entre os movimentos sociais e territoriais do campo e da cidade. As ações podem acontecer de diferentes formas dependendo da realidade e demandas locais. O movimento tem mantido o abastecimento na cidade com entregas semanais de cestas camponesas de alimentos, e doação de refeições para moradores de rua.

O MST tem a Marmita Solidária, que recebe doações de sindicatos e apoiadores para compra de comida para preparar refeições para moradores de rua. E a Campanha Nós Por Nós, que se insere na Campanha Periferia Viva, e que o MPA e outros movimentos também participam. A campanha arrecada recursos para comprar a produção agroecológica dos assentamentos e pequenos agricultores para doar para favelas, e junto fazer um trabalho de apoio, como por exemplo ajuda jurídica para quem não tem documentos de identidade, ou outras ações para além de somente doar a comida.

Pela CAB estamos organizando nacionalmente a campanha Vida Digna, contra o aumento do custo de vida. Há comitês estaduais e locais, e conseguimos articular uma doação de alimentos do MST para duas ocupações da Frente Internacionalista dos Sem Teto. Também pela CPT articulamos uma possibilidade de recurso para assentamentos e comunidades quilombolas, entre outras, na região norte do estado do Rio, juntamente com MPA.

Mas em todo o país estão ocorrendo várias ações semelhantes com nossa militância da CAB envolvida, buscando articular ações de solidariedade entre o campo e a cidade, entre pequenos agricultores e comunidades indígenas. Ações que aproximam apoiadores da cidade que querem ajudar. Esperamos que tudo isso ajude a aproximar mais os movimentos do campo e da cidade, de forma mais orgânica, entre as bases destes movimentos também. Ações que façam os movimentos pensarem juntos formas de solidariedade no dia a dia, sem precisar tanto de projetos, de políticos ou políticas públicas.

Essa pandemia fez com que os movimentos e coletivos tivessem que criar outras formas de comercialização, outras formas de logística para continuarem com a produção e a comercialização. E tudo isso pode ser importante no futuro, se os movimentos conseguiram definir políticas estratégicas acertadas, pois teremos cada vez menos políticas públicas para o campo por parte do Estado. Pelo contrário, só aumentam os ataques aos indígenas, camponeses e a grilagem de terras.

BRRN: O MST é provavelmente o mais bem-conhecido dos movimentos sociais do Brasil no mundo. A organização e suas realizações impressionantes, como a ocupação e redistribuição de terras a milhares de famílias, promovendo agroecologia e soberania alimentar, e suas contribuições as movimentos camponeses globais, têm sido uma fonte de inspiração para revolucionarixs pelo mundo inteiro, incluindo anarquistas. De longe, parece que são vários aspetos das práticas e táticas alinhados com princípios anarquistas. Ao mesmo tempo, há caraterísticas do MST, como o seu marxismo-leninismo, e sua relação com o PT, que podem apresentar desafios para anarquistas quem quer fazer apoiar/participar/colaborar com o MST. Gostaria de saber como é a avaliação do FARJ sobre o MST: os aspectos positivos do movimento, suas críticas, e como guiam seu trabalho com o MST.

FARJ: No Brasil a questão fundiária, da concentração de terras, é central. Pois hoje ainda somos um país periférico agrário-exportador de commodities. Apesar de ser visto pelas outras potências mundiais como um contender, um player mundical, pelo tamanho e pelos bens naturais que possui, como água, petróleo, minérios etc. Por isso também os ataques e golpes, que são coisas bem presentes na história dos países da América Latina. Então o Brasil sempre teve fortes conflitos agrários e por terra, várias revoltas históricas, sem falar nos quilombos, os trabalhadores do campo, os indígenas.

O MST, assim como outros movimentos do campo, vem desse acúmulo de lutas, conflitos e revoltas. Antes, um dos principais movimentos foi as Ligas Camponesas (1954-1964). Com o tempo foram surgindo também os sindicatos do campo que trabalhavam estas pautas trabalhistas e do trabalhador assalariado, empregado em fazendas etc. Com o golpe e a ditadura empresarial-militar (1964) os militantes do campo também sofrem muita repressão, com mais de mil mortos e desaparecidos, e perseguindo e reprimindo as Ligas Camponesas.

Depois aconteceu a abertura e transição conciliadora da ditadura para a democracia. Diferente de países como a Argentina, os militares no Brasil não foram punidos pelos crimes da ditadura. Naquele período foram vários os grupos de resistência armada e de esquerda que buscaram resistir à ditadura. Então o processo que se seguiu, nos anos 70-80, tem também o desenvolvimento e envolvimento de organizações sindicais, culminando na CUT (1983), setores progressistas da igreja (CEBs, Pastoral da Terra e Teologia da Libertação), movimentos do campo e o PT.

Na CUT havia o Departamento Rural, que reunia trabalhadores do campo, com pautas mais relacionadas aos direitos trabalhistas. E o MST (e depois MPA) surgem também para dar conta de pautas de demandas do campo que não eram só trabalhistas, mas de acesso à terra, a crédito e políticas públicas para produzir a para continuar reproduzindo sua vida no campo. Ou seja, a CUT e os sindicatos do campo não davam conta de todas as pautas camponesas.

As pastorais e Teologia da Libertação tinham importante papel junto com os movimentos do campo, fazendo trabalho de base nas comunidades, mobilizando o povo e contribuindo com os movimentos sociais que vinham ocupar as terras.

Esse era o grande “caldo” político de base social, que abordamos aqui de forma muito geral. E todo esse caldo e lutas iam sendo acumuladas no chamado Projeto Democrático Popular, tendo o PT como expressão política partidária. Ou seja, alguns destes grandes movimentos de massa do Brasil tem uma relação histórica muito forte com o PT. E com a chegada do PT no governo, os movimentos também foram incorporando uma cultura política de fazer parte do estado, se burocratizando também. E teve como consquência um grande enfraquecimento dos movimentos, principalmente nos dias de hoje, com dificuldades de mobilizar as massas e fazer frente aos ataques do governo Bolsonaro de orientações fascistas.

Além disso, o principal referencial organizativo destes movimentos é o marximo-leninismo e centralismo democrático, mesmo que algumas vezes os próprios movimentos reconheçam a necessidade de buscar outros elementos que melhor contemplem a realidade do campesinato e dos sujeitos do campo. Então se os mecanismos de participação política forem trabalhados há os riscos de se cair em relações de distanciamento entre as bases e as direções destes movimentos. Ou seja, a necessidade de espaços que possibilitem uma participação política qualitativa das bases, refletindo sobre o trabalho em que se inserem, se formando, conduzindo os processos e contribuindo, desde sua realidade, com os rumos do movimento. Evitando também os riscos de se cair no pragmatismo, ou o chamado “apagar incêndios” diariamente, que se acumula pouco politicamente e socialmente, mesmo que se esteja fazendo muita coisa.

Em nossa concepção anarquista, acreditamos que o sujeito de transformação social não está dado, mas se forma no trabalho e na luta cotidianos, e o poder popular se constrói com participação política dos sujeitos, assumindo responsabilidades e protagonismo nas lutas. Por isso a forma organizacional precisa estar alinhada com uma concepção ideológica transformadora, para que possibilite o avanço de formas organizativas não alienantes.

Portanto buscamos também trazer e projetar outras experiências históricas de luta e organização da classe trabalhadora, do campesinato, das comunidades originárias. Temos exemplos como a a Revolução Mexicana (1910), e o depois movimento Zapatista no México. A luta do exército Makhnovista na Ucrânia, no processo da Revolução Russa, processos com protagonismo indígena e camponês na expropriação de terras e organização social. Os processos de coletivização e organização da produção e social na Guerra Civil Espanhola, no campo e na cidade, com o exemplo da CNT. Assim como o Confederalismo Democrático no Curdistão, com a organização, autodefesa, gestão territorial e do trabalho e da produção de forma coletiva e direta. Experiências comunitárias atuais na Colômbia com a concepção da terra como bem comum, e exigindo a permanência e reprodução das formas de vida comunitária nos territórios. Enfim, são várias as experiências, algumas conhecidas pelos movimentos, além de outros referenciais que eles também buscam, e que procuramos estudar e identificar elementos que podem contribuir com nossos processos aqui.

Portanto, o anarquismo precisa também elaborar ferramentas concretas de intervenção na realidade, de mobilização e gestão da vida nos seus diferentes aspectos, social, cultural, produtivo, econômico. Ou seja, precisamos também elaborar propostas para organizar o campo e que deem conta destas questões.

BRRN: Lutas por soberania alimentar, agroecologia, e reforma agrária trazem algumas questões cruciais para anarquistas, particularmente porque muitos movimentos e acadêmicos que dominam o debate não compartilham de nossos críticas do Estado, eleitoralismo, etc. e muitas vezes veem o Estado-Nação como o meio para alcançar a soberania alimentar, reforma agrária, etc. Eu não encontrei muitas perspectivas anarquistas contemporâneas sobre soberania alimentar, agroecologia, e reforma agrária – especialmente duma perspectiva de anarquismo social – e estou curioso de saber de suas reflexões como umx anarquista participando nesses movimentos no Brasil, e como você e outrxs militantes da FARJ pensam sobre a soberania alimentar e reforma agrária de uma perspetiva anarquista – podemos articular uma perspectiva particularmente anarquista sobre como podemos alcançar soberania alimentar, agroecologia e reforma agrária que seja distinta das perspetivas das correntes marxistas-leninistas, socialdemocratas e liberais nos movimentos sociais?

FARJ: Estamos começando a fazer esse debate atualmente na CAB, no Grupo de Trabalho Agrário, entre os/as militantes que têm trabalho com movimentos do campo, com comunidades indígenas, não-urbanas. Com outros movimentos como o MAM (Movimento pela Soberania Popular na Mineração) E tem a ver um pouco com a pergunta anterior. Ou seja, quais as propostas concretas do anarquismo para a realidade? Qual é o nosso programa de lutas anarquista?

Então estamos começando a discutir quais concepções são importantes e centrais para nós. Como Soberania Alimentar. Reforma ou revolução agrária, os bens naturais e energéticos. O bem viver, em oposição à lógica de desenvolvimento. Entre outros.

Para nós estas questões precisam estar relacionadas com as demandas populares, com a realidade popular. A agroecologia para nós deve ser ferramenta e princípio para fortalecer a luta e a organização dos povos e comunidades do campo. Ou seja, vamos buscar também aplicar estes conceitos e questões como referenciais, dentro de nossa concepção anarquista, a partir da realidade popular, para o fortalecimento do trabalho de base e do poder popular.

Alguns destes conceitos também são trabalhados pelos movimentos sociais do campo como soberania alimentar, agroecologia, feminismo. Mas é claro que precisamos desenvolver também nossas concepções sobre eles. Mas podemos dizer, de forma geral, que a esquerda muitas vezes tem uma leitura da realidade muito urbana, valorizando mais as questões sindicais e urbanas, reproduzindo essa centralidade no urbano. E o anarquismo não está livre de reproduzir um pouco disso também.

BRRN: Desnecessário dizer que os processos históricos do colonialismo e desenvolvimento capitalista pelo mundo inteiro deixaram uma série de contradições para as diferentes classes oprimidas e comunidades agirem em torno da questão da terra. Aqui nos Estados Unidos, pelo fato de os movimentos sociais serem fracos, o debate e lutas sobre terra e reforma agrária não estão tão avançados em relação ao contexto brasileiro. Uma questão crítica aqui nos EUA e Canadá – dois projetos coloniais europeus situados em territórios indígenas – é como diferentes populações nas lutas sobre terra e território – indígenas, afrodescendentes, pequenos agricultores, trabalhadores agrícolas migrantes, etc – podem se solidarizaer uns com os outros em vez de serem jogados uns contra os outros pelas contradições criados pelos sistemas colonialistas e capitalistas. Estou muito interessado em saber onde está o debate sobre estas difíceis questões nos movimentos sociais em que vocês trabalham, e quais são suas perspetivas sobre elas, como anarquistas. No Rio de Janeiro, há sinais promissores de solidariedade entre indígenas, comunidades quilombolas, camponeses e trabalhadores agrícolas? Pode nos recomendar fontes boas para pessoa que gostariam de aprender mais sobre essas questões e lutas?

FARJ: Aqui também ocorrem questões territoriais semelhantes, acredito que consequências também dos processos históricos do colonialismo, a escravidão e o patriarcado estruturantes e as demais opressões potencializadas pelo capitalismo.

O Brasil, por ser um país de dimensões continentais, coloca vários desafios. Por exemplo, há uma realidade, relação com a terra e cultura de colonos no sul do país, e há outra das comunidades indígenas e outros sujeitos no norte do país. Isso já coloca várias questões para a luta e os movimentos também. Por exemplo a questão de trabalhar a ideia de sujeito camponês, diante destas diversidades. Passa também por conhecer e saber entender outras formas organizativas, que podem ser diferentes das formas organizativas que a esquerda tradicional reproduz.

Por outro lado, o Brasil tem esse grande potencial de luta e de povos e sujeitos do campo. Quase 40% das terras no país são assentamentos da reforma agrária, terras indígenas (reconhecidas ou não), quilombos, comunidades camponesas. Os poderosos sabem dessa potencialidade e têm medo. Por isso investem em repressão e no desmonte de direitos sociais, na grilagem, na violência paramilitar etc.

É uma diversidade social que é uma realidade da América Latina. A força dos indígenas no Peru, Equador, Bolívia. Os Mapuche na Argentina e Chile. A Colômbia é também um país bem rico e interessante, com comunidades afro-colombianas, várias etnias indígenas, camponeses. Há a CNA (Coordinador Nacional Agrario), um significativo movimento camponês do país, há um debate bem interessante de “território agro-alimentar”, por exemplo.

No Rio o MPA vem realizando contatos e trabalhos com algumas comunidades quilombolas, e agora indígenas. Na capital há a luta da Aldeia Maracanã, que mobilizou bastantes apoiadores contra a especulação e gentrificação que o mega-evento das Olimpíadas escancarou. Há muitas possibilidades de diálogo entre quilombos, aldeias indígenas, favelas, movimentos do campo e da cidade e podemos avançar mais. Ações como hortas comunitárias, a agricultura urbana, também são possibilidades interessantes para a soberania alimentar de moradores de favelas, e possibilidades de diálogo com movimentos do campo. Organização de coletivos de consumidores nas cidades, se organizando para terem acesso a alimentos saudáveis no campo e sua distribuição. Grupos de investimento coletivo de apoiadores, viabilizando a produção no campo. Relações de apoio entre diferentes setores da classe trabalhadora, entregadores, trabalhadores da educação, estudantes. As possibilidades do/as de baixo se organizarem são muitas.

Alguns endereços de referências e informações:

Biblioteca Virtual do MST http://www.reformaagrariaemdados.org.br/biblioteca

Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) – https://mpabrasil.org.br/

Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) – http://mamnacional.org.br/

Coordinador Nacional Agrario (Colombia) https://www.cna-colombia.org/

Comissão Pastoral da Terra https://cptnacional.org.br/

Frente Quilombola Rio Grande do Sul https://www.facebook.com/FrenteQuilombolaRs/

Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira https://www.facebook.com/coiabamazoniaoficial/

APIB – Articulação dos Povos Indígenas do Brasil https://www.facebook.com/apiboficial/

Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul https://www.facebook.com/ARPINSULBRASIL/

Mídia India https://www.facebook.com/VozDosPovos/

Conselho Indígena de Roraima(CIR) https://www.facebook.com/conselhoindigena.cir/

Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo https://www.facebook.com/apoinme.brasil/

Teia dos Povos https://www.facebook.com/TeiadosPovosoficial/ https://www.youtube.com/channel/UC2UJMebiQCJihQ6GdC_q2aQ

BRRN: Tem mais alguma coisa que você gostaria de compartilhar?

FARJ: Gostaríamos de agradecer o espaço e a oportunidade difusão das experiências e trabalhos aqui. Há outras companheiras e companheiros organizados na CAB que também podem contribuir com suas experiências de seus estados e nosso trabalho também tem contribuições deles. Esperamos poder ter contribuído com a Black Rose, e a ajudar para que mais pessoas conheçam um pouco mais sobre as lutas no Brasil e em nosso continente. Nós também esperamos ter mais oportunidades de trocas como esta com as companheiras e companheiros da BR, que nos inspiram também. Espaços como este são fundamentais.

Arriba lxs que luchan!!!

Related Link: http://cabanarquista.org/2020/11/21/agroecologia-e-anarquismo-organizado-entrevista-farj/

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