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As anarquistas e a luta por uma vida em liberdade

category brazil/guyana/suriname/fguiana | gênero | comunicado de imprensa author Saturday March 09, 2019 22:58author by FAG/CAB - Federação Anarquista Gaúcha Report this post to the editors

Comunicado de março das companheiras da FAG/CAB

“Neste momento decisivo em que as definições devem ser traduzidas de forma fulminante em feitos e as posições em ações contundentes, a definição e posição das mulheres – de mulheres livres, das que afirmam sua vontade resoluta de ser – nos dão os fatos e ações que essas páginas coletam da maneira mais plausível possível. Junto à mão suave das mulheres que curam feridas, cuidam das crianças ou oferecem um gole de água para a sede ardente do combatente, destacamos o braço forte da mulher que ergue um fuzil. Isso não significa, de maneira alguma, a renúncia de um sentido humano que queremos proclamar acima de tudo. Mas nosso sentido humano é integral, ativo e beligerante. E é transcendente. Isto é, atinge mais do que alívio imediato da dor imediata. Aspira à eliminação radical da dor, pelo menos da dor social que nasce da opressão política e da injustiça econômica.
[…] Enquanto isso, o nosso sentido humano, precisamente o nosso sentido humano, obriga-nos à luta dura, cruel, implacável contra um inimigo implacável. Através da morte, sobre a morte, defendemos a vida. A única vida que merece ser defendida: a vida em plena liberdade “.
Nosso sentido humano, Revista Mujeres Libres
8M em Porto Alegre Brasil 2019. Foto: Guilherme Santos Sul 21
8M em Porto Alegre Brasil 2019. Foto: Guilherme Santos Sul 21

Nesse 8M, importante data de luta para as mulheres oprimidas do mundo, nós, mulheres da Federação Anarquista Gaúcha, convidamos todas e todos para uma reflexão e para somarem-se na luta por uma vida digna, por uma vida em liberdade.
A crise que enfrentamos no planeta é uma crise econômica, política e ecológica. Forças reacionárias e conservadoras espalham-se como praga apresentando-se como solução salvacionista. No andar de cima, paletós, canetaços, fuzis, dinheiro dão as regras do jogo. Saqueiam nossos territórios, destroem nosso planeta, atacam direitos e liberdades, matam o nosso povo. No Brasil, o fim do pacto e a escalada agressiva do capitalismo financeiro sobre os direitos sociais culminaram com a eleição de Bolsonaro. O desmonte dos movimentos sociais levado a cabo pelos governos petistas (que transformaram lutadores em governo e fragilizaram a capacidade de reagir), a associação das ideias de esquerda com as estruturas da velha política, os interesses vorazes do capitalismo, junto com a ascensão conservadora mundial pós crise de 2008 são alguns elementos que nos trouxeram a essa etapa de Estado Policial de Ajuste. É o aprofundamento do modelo agressivo do capitalismo neoliberal com controles policiais e estatais. A militarização é o aspecto conservador e repressivo da crise do capital na ofensiva do sistema financeiro sobre os bens comuns e os direitos sociais.
Nessa guerra anti-povo há uma investida especialmente contra os movimentos de mulheres e LGBTQI+, povo negro e povos originários.
O racismo colonial e o patriarcado se atualizam e nos impõem o desafio de organizar as lutas com firmeza, sem recuar. Algumas pautas nos exigem especial atenção e ação imediata na luta.

A norma para o povo pobre, negro e periférico, em qualquer governo, sempre foi o estado penal. Os governos petistas incrementaram a máquina criminal da ordem pública com todo um aparato legislativo-judicial que reproduziram o super encarceramento dos pobres e negros, que atinge a marca de 726 mil detentos e tem cerca de 64% de negros cumprindo pena, segundo o Infopen. A atualização de uma doutrina de segurança nacional com inicio desde os mega eventos no governo Dilma e de forma ainda mais perigosa com os recentes movimentos da caserna promovem a continuidade e ampliação do superencarceramento, numa perigosa mudança no contexto da segurança pública e justiça criminal. Fica evidente a atuação do estado não só em deixar morrer, mas em matar. Como exemplos, o genocídio do povo negro e das populações originárias enquanto um projeto de estado, a violência policial, as intervenções federais, a guerra às drogas enquanto guerra ao nosso povo e do encarceramento em massa. É o cerco que se fecha sobre a pobreza e os movimentos sociais. Racismo e patriarcado se articulam de forma dramática colocando as mulheres negras na base de todas as opressões, as que mais sentem na carne a violência dos homens e do estado.
No sistema fundando sobre o patriarcado, que tem o homem branco heterossexual e rico no topo da hierarquia social, a violência que nos atinge é pelo fato de sermos mulheres. As violências econômicas do ajuste fiscal aumentam nossa vulnerabilidade diante da violência machista, que tem seu ápice no feminicídio, mas que nos atingem de diferentes formas, todas cruéis. Exemplo disso, 2019 iniciou com uma das maiores taxas de feminicídio do Brasil, 107 casos de feminicídio registrados nos primeiros 20 dias do ano. No Brasil, a taxa de feminicídios é de 4,8 para cada 100 mil mulheres, a quinta maior do mundo, segunda a Organização Mundial de Saúde (OMS). Assassinatos cruéis, mutilações, violações, torturas e degradações dos nossos corpos, esse são problemas reais que enfrentamos cotidianamente por causa da violência machista da nossa sociedade. De uma forma mais ampla, também sentimos mais o desemprego, a precarização e carestia de vida.
Entre as formas perversas de violência contra a mulher, a cultura do estupro se faz presente em toda a sociedade. No Brasil é parte constituinte da formação social, pois sob a consigna da miscigenação cultural (ou falácia da democracia racial) existe um país formado a partir do estupro colonial de negras e indígenas. As estatísticas nos mostram que 70% das vítimas de estupro no Brasil são crianças e adolescentes, segundo levantamento do IPEA, feito com base em dados de 2011; cerca de 15% dos estupros registrados no sistema do Ministério da Saúde envolveram dois ou mais agressores; 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima. Em 2014, o Brasil teve um caso de estupro notificado a cada 11 minutos. A cultura do estupro existe a partir da inadmissível ideia que os corpos e as vidas das mulheres servem naturalmente à dominação masculina. Reside em nosso meio como permanente lembrança de que vivemos em uma sociedade extremamente violenta com as mulheres. E essas violências tendem a se agravar diante do avanço do conservadorismo que estamos enfrentando. Cada vez mais se faz presente a certeza de que precisamos de espaços de autodefesa, participação e fortalecimento para as mulheres. Frente a tais dados, a proposta surpreendente (de tão absurda) do atual presidente é a castração química como punição para estupradores; forma paliativa de evitar que o agressor possa manter relações sexuais. Entretanto, tristes dados reais apresentam relatos de vítimas violentadas com outros instrumentos, sujeitadas, humilhadas e expostas à condições indignas de atendimento médico, sob o julgamento dos olhares patriarcais da sociedade e mostrando que estupro não se trata de sexo, mas do poder de sujeitar. A cultura do estupro, as estatísticas sangrentas e o pacote de PL’s em tramitação que nos tocam diretamente evidenciam que a luta pelo direito de decidir sobre nossos corpos é pauta fundamental. Nós exigimos um mundo onde nossos corpos não sejam entendidos como bens públicos e propriedade dos homens e do estado. Queremos a liberdade de andar no espaço público sem sermos assediadas. Que nem homens, nem estado, nem igreja decidam como, quando e se vamos ter filhos. Que ninguém nos diga como agir, o que vestir, quem amar. Nos queremos ingovernáveis!
Depois da reforma trabalhista e terceirização irrestrita que nos impactaram de forma mais intensa, vem aí a nefasta reforma da previdência do governo Bolsonaro, que se aprovada vai empurrar gerações de idosos para a miséria e nos matar de tanto trabalhar e é ainda mais perversa para nós mulheres. Ela desconsidera a divisão sexual do trabalho ainda presente em toda sociedade, que nos destina os piores salários, as piores condições de trabalho e maiores responsabilidades e acúmulo do trabalho não remunerado. As mulheres trabalhamos em média 7,5 horas a mais por semana, por conta das duplas e triplas jornadas. Esse projeto dificulta ainda mais o acesso dos idosos mais pobres e das famílias mais vulneráveis aos benefícios previdenciários; desconsidera a realidade das milhões de mulheres desse nosso país: trabalhadoras do campo e da cidade, mães, ambulantes, domésticas…Não existe privilégio na aposentadoria das e dos trabalhadores! Para sustentar a farra dos ricos querem arrancar nosso sangue e nos fazer trabalhar até morrer. É nossa tarefa tomar lugar no centro das lutas populares, desde baixo, defender cada direito que ameaçam nos arrancar.
São muitas as violências e há muito o que fazer. Essa história não começa conosco e tampouco termina amanhã.
Isabel, Maria de Lourdes, Branca, Alzira, Elvira, Angelina. Lucy, Mercedes,Lucia, Fanny. Elena, Louise, Amparo. Macarena, Claudia, Marielle, Tatiana.
Tantas outras lutadoras anônimas apagadas na história dos homens.
São muitas as que nos precederam. Muitas as que caíram, muitas as que não estão.
Nesse 8M também fazemos memória a tantas que são exemplos de militantes na luta incansável pela libertação de nossos corpos e pela conquista de uma vida digna. Carregamos em nós seu legado.
Como anarquistas, acreditamos que a luta antipatriarcal e o feminismo, assim como a luta antirracista e anticolonial são estratégias fundamentais para destruir esse sistema que nos aniquila de muitas formas. Entendemos que as relações de poder se estruturam de formas específicas e é preciso compreende-las se queremos destruir o sistema de opressão em seu conjunto. Acreditamos na construção de um tipo de militância que tenha participação ativa nas organizações populares. Que desenvolva atuação por meio da ação direta e da democracia direta. Um feminismo classista e de base. Nosso feminismo é luta social e coletiva. Não acreditamos numa especialização da luta feminista, mas sim que o feminismo deve atravessar o conjunto da nossa organização. Que as formulações e metodologias feministas podem aportar não para a liberdade individual, mas sim para a conquista da liberdade de cada território e de cada corpo oprimido.
As mulheres no dia 8 de março não têm o que comemorar, mas sim ousar. Embandeirar nossa luta nas trincheiras do cotidiano machista, racista e patriarcal. Descolonizar o território de nossos corpos, solidarizando as conquistas, pois uma mulher lutando o futuro de todas está modificando!
Nesse 8M e em todos os dias, com vínculos solidários e responsabilidade coletiva, tomemos nosso lugar na luta por um mundo sem injustiça. Usemos as armas que forem necessárias. Não tenhamos medo, tenhamos corpos indignados.
Pelas que lutaram antes de nós, por todas as que não estão e por nenhuma a menos.
MULHER É RESISTÊNCIA!
ARRIBA LAS QUE LUCHAN!

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8M em Porto Alegre Brasil 2019. Foto: Guilherme Santos Sul 21
8M em Porto Alegre Brasil 2019. Foto: Guilherme Santos Sul 21

8M em Porto Alegre Brasil 2019. Foto: Guilherme Santos Sul 21
8M em Porto Alegre Brasil 2019. Foto: Guilherme Santos Sul 21

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Neste 8 de Março, levantamos mais uma vez a nossa voz e os nossos punhos pela vida das mulheres!
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