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A encruzilhada venezuelana e a hegemonia latino-americana

category internacional | imperialismo / guerra | opinião / análise author Friday March 15, 2013 21:24author by Bruno Lima Rocha Report this post to the editors

A verdade dura e crua é que, sem a pressão da Venezuela, o Brasil teria aceitado os planos da Área de Livre Comércio para as Américas (ALCA) e, fatalmente, seríamos sócios minoritários dos EUA na aliança.

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Hugo Chávez faleceu e deixa uma pesada herança política, além de um sucessor indicado pelo líder carismático. Existe alguma semelhança na política venezuelana e a história recente da transição brasileira, que culmina no padrão Macunaíma. Aqui como lá, o vice-presidente toma posse sem que o presidente houvesse feito. Tal vice, José Ribamar Sarney, era do partido da ditadura (primeiro ARENA e depois da reorganização partidária de Golbery, PDS) e compunha chapa com um moderado líder da oposição oficial, Tancredo Neves. Em eleição indireta, a caserna se retirara de cena, embora tenha exercido tutela sobre o mandato tampão que ficara por 5 anos e cujo político maranhense ainda manda no Senado. Ou seja, dentro dos arranjos de transição e traumas políticos.

Já na Venezuela, a eleição de 1998 trazia como vitorioso o ex-golpista de fevereiro de 1992. O militar passa a preso político e, após dois anos de reclusão, sai do xadrez transformado em herói nacional. Desde então, Chávez enfrentou dois golpes de Estado (abril de 2002 e o locaute petroleiro na virada daquele ano) e algumas eleições, incluindo referendos de reformas constitucionais. O caudilho falecido venceu quase todas, sendo que na última, consegue ganhar sem chegar a tomar posse. Internado em Cuba para tratamento de câncer, seu vice, Nicolás Maduro, assumiu de forma provisória, a partir da hegemonia total do chavismo dentro dos poderes do país. Indicado pelo comandante, Maduro torna-se inquestionável, sendo fortalecido pelos novos oficiais-generais, militares profissionais politizados e colegas de turma do falecido tenente-coronel pára-quedista, e que se mostraram leais quando do putsch de 2002. Agora, mais que nunca, sua sobrevida implica na coesão do partido chavista (PSUV) e nesta lealdade dos altos mandos militares. O risco de virada de mesa, embora real, nos próximos meses parece improvável. Ao contrário do que se imaginava na primeira década do século XX, o ciclo de golpes é sempre presente na América Latina.

O paradigma dos golpes de Estado – pela via da legalidade, ou alegação da mesma - está em alta na América Latina, com ênfase na gestão de Hillary Clinton à frente do Departamento de Estado no primeiro governo do democrata Barack Obama. No país alvo do genocídio americano do século XIX não foi diferente. Em 22 de junho de 2012 o então presidente eleito do Paraguai, o ex-bispo Fernando Lugo, foi destituído através de um golpe branco dado pelo parlamento. Votado de forma célere e com pouco ou nenhum direito a defesa, o presidente foi retirado do cargo, afastando a possibilidade de reforma agrária e abrindo o país para instalação de tropas terrestres estadunidenses. O Mercosul, de forma justa e apropriada, suspendeu o Paraguai do bloco, em função do golpe apoiado pelos líderes dos poderes constituídos. E se houver algo semelhante na Venezuela?

Menos de um ano depois e a encruzilhada se encontra lá; país rico e governado pelo ex-tenente coronel pára-quedista, ex-golpista, Hugo Chávez. Se o vice-presidente eleito, Nicolás Maduro, assumir o Executivo de vez a partir da morte de seu líder e não convocar novas eleições presidenciais, todo o Continente estará diante de um impasse da democracia formal e pode pender a balança. Isto é pouco provável, mas o risco sempre é remanente. Já no caso destas eleições ocorrerem, a direita latino-americana, a oligarquia esquálida venezuelana e o Império apostarão todas as suas fichas no combate sistemático das políticas do chavismo (sem Chávez) e do processo bolivariano. A derrota nas urnas da direita de lá é provável, assim como o inevitável desgaste da gestão de Maduro à frente de um PSUV rachado e com disputa de protagonismo com o Brasil na região. E este é outro problema. Para os rumos do Continente, é melhor que o país de Bolívar se mantenha na ofensiva diplomática; graças a este movimento latino-americanista, o maior Estado da região não pôde conceder em demasia para o Império.

A verdade dura e crua é que, sem a pressão da Venezuela, o Brasil teria aceitado os planos da Área de Livre Comércio para as Américas (ALCA) e, fatalmente, seríamos sócios minoritários dos EUA na aliança. Basta recordar novembro de 2005 e a visita de Bush Jr a Montevidéu e São Paulo para lembrar-se dos ocorridos durante e após a Cumbre das Américas em Mar Del Plata. A tendência era um tratado unilateral assinado pela Casa Branca com o governo do uruguaio de Tabaré Vásquez e o prosseguimento das tratativas para o mercado comum integrado ao Império. A política externa agressiva da Venezuela e o pesado investimento no resgate de cadeias produtivas exauridas, tal como o vidro e os pneumáticos no Uruguai, deixara sem espaços para uma integração subordinada. A arena continua aberta e a encruzilhada venezuelana reposiciona toda a América Latina.

Bruno Lima Rocha

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