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Tempos de Eleições

category argentina / uruguai / paraguai | a esquerda | opinião / análise author Thursday September 27, 2012 05:20author by Federação Anarquista Uruguaia - FAU Report this post to the editors

Texto da FAU traduzido ao português

A revista intitulada “Zurda”, vinculada a um novo grupo da Frente Ampla*, fez uma reportagem com a fAu no período eleitoral. Fizeram-nos a seguinte pergunta: “Por que os anarquistas não votam?”. Nossa Organização deu sua opinião sobre o tema, e a Revista publicou na íntegra todas as considerações apresentadas. Segue abaixo o texto da entrevista.

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Tempos de Eleições


A revista intitulada “Zurda”, vinculada a um novo grupo da Frente Ampla*, fez uma reportagem com a fAu no período eleitoral. Fizeram-nos a seguinte pergunta: “Por que os anarquistas não votam?”. Nossa Organização deu sua opinião sobre o tema, e a Revista publicou na íntegra todas as considerações apresentadas. Segue abaixo o texto da entrevista.


Zurda - Por que os anarquistas não votam?

fAu - Mais uma vez nos fazem esta pergunta.

Uma pergunta que, obviamente, não tem uma resposta simples. É o equivalente a perguntar: Como o anarquismo concebe o mecanismo político? O anarquismo considera que há um nível político específico e que se deve atuar nele? As práticas políticas não são todas da mesma ordem, não tem algo em comum que as constitui e lhes dá um perfil inconfundível? As eleições não são parte substancial de toda prática política?

A categoria política está constituída sobre bases tão fluidas (muitas delas polêmicas) que esta lista de perguntas, correspondentes a uma mesma constelação de questões, poderiam ampliar-se muito mais.

É importante pontuarmos, antes de tudo, que seria um atrevimento de nossa parte querer falar em nome do anarquismo. O anarquismo é uma ideologia, uma doutrina, com muitas matizes. Assim, respondemos aqui como fAu, como uma organização política anarquista que já tem 43 anos de existência e uma trajetória na qual fizemos, com coerência, o que foi possível em função de seu projeto.

O anarquismo não é um dogma, nunca colocou-se como tendo em suas mãos a verdade revelada. Consequentemente, sempre agiu ao mesmo tempo no campo social, no trabalho crítico e reflexivo. E muito desta atitude está presente na fAu.

Pensamos, obviamente, que os contextos históricos estão constantemente apresentando diferentes formas, e através de momentos de grande importância. O que podemos chamar de “etapas do capitalismo” carrega determinados elementos específicos. E o específico é questão de primordial importância para analisarmos tanto o tema que estamos tratando, como uma formação social, ou um período pertencente a uma mesma estrutura de dominação do sistema capitalista. Mas não acreditamos que o específico anule o geral. É verdade que, no percurso do século que está por terminar, montaram-se teorias, estabeleceram-se paradigmas falando-nos, com certezas científicas, de totalidades quase inquestionáveis. Hoje muitos destes fundamentos teóricos, destes paradigmas e epistemes, são altamente questionados e alguns caíram por terra.

Mas houve muita coisa positiva que as lutas e o pensamento socialista produziu. E também, por que não dizer, muitas pesquisas independentes sobre temas particulares que abriram campos de reflexão e trouxeram novos elementos para novos discursos.

Dentro do que foi produzido pelo pensamento socialista, corroborado em boa parte pelas experiências sociais, estão teorias sobre os mecanismos de reprodução do sistema vigente. Mecanismos básicos que, mesmo em contextos sociais altamente diferenciados, operam de maneira semelhante. Como um conjunto básico de “peças” relacionadas, articuladas, que possibilitam algumas coisas e impedem outras. Permitindo, por exemplo, que a riqueza e a pobreza cresçam; que os distintos poderes fundamentais estejam sempre nas mãos de uma minoria privilegiada; que os meios de comunicação conformem “ideais”, “valores” e padrões “culturais”, reafirmando do sistema vigente.

Então, falar de eleições é fazer alusão a uma “peça” de uma estrutura de poder que é muito mais ampla.

Sabemos que não é simples colocar certas propostas em nossa época, quando o aparato ideológico do sistema, a guerra aberta à solidariedade e a tudo o que possa gerar culturas de cooperação, acabam alimentando a fragmentação e a atomização, em que cada um pensa somente em si.

Porque essa agressividade ideológica, por parte dos mesmos que dão por encerrada a própria ideologia, a história e outras questões, tentam utilizar-se de fatos históricos, tais como as chamadas “experiências socialistas” que tiveram um triste final, para gerar a desmobilização moral e combativa das populações.Mas a verdadeira alternativa socialista está aqui, diante de nós, não é uma elaboração feita de fora das experiências históricas. Mas, com seus erros e acertos, é um produto autêntico que compreende as ânsias de justiça e liberdade dos povos. Seria importante começar a se reformular uma crítica mais rigorosa sobre tudo aquilo que fez naufragar a alternativa de estruturar uma sociedade sobre bases diferentes das da miséria, que sustenta este sistema.

Dentro das reflexões – que muitos já se fazem – está o papel representado pelas eleições num sistema como o atual. Há participação em um processo como as eleições? Representam uma autêntica democracia? Se o elaborado discurso “moderno” serve para nos inserirmos nessa estrutura, para deixarmos que tudo siga da mesma maneira; para termos a ilusão de que estamos fazendo grandes transformações políticas, então não há dúvidas de que as eleições, enquanto ação política clássica, representam atualmente o espaço privilegiado para isso. Permitidas e altamente desejadas por aqueles nossos conhecidos de sempre.

Mas há algumas coisas sobre o funcionamento do sistema, seu caráter classista, seus mecanismos de poder e reprodução que o socialismo assinalou, e em especial o socialismo de matriz libertária. Esses mecanismos tem uma dinâmica perversa e seria puro voluntarismo e idealismo procurar subvertê-los utilizando-se de seus próprios meios. Não são onipotentes e podem ser enfrentados e desestruturados, mas... não a partir de dinâmicas que o retroalimentam.

Assim, todo jogo eleitoral cumpre fins que tendem à legitimação do sistema. Seguindo a vida de maneira regular, alternado com alguma ditadura quando convém, é vital ao sistema esta legitimação e esta ficção de participação popular, que cumpre ao mesmo tempo o papel de expropriação da soberania popular. Mas esta fantasia, que oculta os núcleos duros de poder, não é ingênua, é muito exigente. Para participar dela é preciso despir-se, somente são aceitos os que vem com pouca roupa. Num documento da fAu, de 1969, dizíamos: temos que ir “buscando a aprovação dos poderosos: FMI, capital internacional, militares... ter bom comportamento, rebaixar programas, criticar duramente as culturas combativas”.

As regras do jogo da burguesia são fortes e envolventes, costuram com um invisível fio de aço. Por isso, mesmo com tantas pessoas bem intencionadas é pouco ou nada o que podem fazer, e na maioria das vezes o ambiente da estrutura política “faz suas cabeças”. Em tal contexto é preciso ter atenção a cada passo que se dá; há pouco tempo um político da Frente Ampla disse que sua ida às eleições havia significado perdas de voto.

Esse mecanismo de democracia virtual parece estar se desgastando de modo geral, no Uruguai mais lentamente. Este “carrossel” que troca políticos, partidos, constituições; que alterna de lugar períodos social-democratas, democratas, partidos tradicionais, e que não deixa nada de novo ou positivo. É hora de pensar em práticas políticas diferentes. Não bastam discursos com adornos modernos e tratando de assuntos atuais. A questão parece ser a de avançarmos em direção a práticas e estratégias que superem as instâncias que não dão lugar ao novo. Ainda mais se o novo busca mudanças profundas e urgentes.

Ouvimos todos os dias que vivemos uma outra época. Mas repetem-se as mesmas velhas e fracassadas receitas. Claro que vivemos uma época assombrosa em termos de avanços técnico-científicos, como a robótica, a cibernética e a genética fazendo maravilhas. Temos meios de comunicação instantâneos, que parecem mágica. Mas junto com toda essa maravilha, que muito apreciamos, também temos mais populações miseráveis, mais devastação do meio ambiente, mais invasões brutais e genocídios. E tudo isso não é casualidade.

Nós, anarquistas da fAu, votamos em muitas situações e instâncias como sindicatos, cooperativas, centros populares e estudantis, plebiscitos populares. O problema não é o voto nem a democracia. A questão é a que mecanismo pertence tal voto e de que democracia falamos.

Nestas circunstâncias, quando a agressão ideológica do sistema é alta, quando os meios de comunicação tem a cada dia maior poder de fabricar opiniões, quando coordenar-se e mobilizar-se se torna uma tarefa difícil, quando a miséria do povo cresce, quando o projeto neoliberal dizima os pobres do mundo, quando os discursos dos setores de esquerda e de intelectuais tornam-se lavados e confusos, faz-se imperativo contar com orientações precisas e firmes. Há uma busca – na qual se encontra muita gente – de ferramentas que permitam a unidade do povo para a luta por suas imperiosas e urgentes necessidades. É nessa busca que nós queremos estar.

Repetiríamos mais uma vez, a questão não é emitir um voto a cada cinco anos, mas sim o que fazemos durante esses cinco anos nessa luta que deve ser cotidiana.

fAu - Federação Anarquista Uruguaia.

(setembro de 1999)

Tradução para o português: Rafael V.
Revisão: Gabriel A.

Nota:
* Frente Ampla – Coalizão eleitoral de centro-esquerda do Uruguai, fundada em 1971, da qual integram vários partidos políticos e organizações da sociedade civil.

Original em espanhol:

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