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The Economist e a farsa com nome de crise

category internacional | economia | opinião / análise author Friday May 11, 2012 02:55author by Valério Cruz Brittos e Bruno Lima Rocha Report this post to the editors

A revista inglesa por vezes ousa em suas capas, ainda sem expor as relações causais mais básicas a respeito dos fenômenos pelo veículo narrados.

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O texto a seguir tem o caráter de introdutório, iniciando uma série de abordagens com rigor de análise, mas intencionalmente produzidas para darem conta da difusão da crítica midiática através de um portal de internet especializado na matéria. O período temporal localiza-se no segundo semestre de 2008, especificamente a partir de setembro, quando se marca o pior momento do capitalismo em sua etapa de financeirização. No auge da chamada crise, os agentes econômicos e ideológicos liderados pelos meios de comunicação ocupando posição de alcance em escala global tornam-se fundamentais para a compreensão do fenômeno e a interpretação de relações causais deles derivados.

Nesta série de artigos analisa-se uma porção específica do comportamento da revista TheEconomist, observando-se suas capas durante o período descrito. O documento a ser desenvolvido nas semanas seguintes, analisa as dezesseis capas produzidas pela revista, a partir de 6 de setembro de 2008, para concluir a questão do mesmo ano em 20 de dezembro. Tais capas se localizam no portal The Economist. Desde o princípio, adota-se a postura de não concordar com o conceito de crise inexorável, reproduzindo em português a consigna dos jovens espanhóis polarizados através do 15-M (15 de maio de 2011), que caracterizam este processo histórico de tempo recente como “a fraude com nome de crise” (em castelhano, la estafa con nombre de crisis, que também poderia ser traduzida como “farsa com nome de crise”).

Teoria das portas giratórias

Nesta série, procura-se expor três variáveis, sendo a variável de controle a que aponta para uma exposição (ou não) de relações causais simples, localizando os geradores de agentes da crise alegada e se estes manifestam ou não a sua posição. A partir desta variável de controle, o nível secundário de análise é a naturalização das relações assimétricas nas negociações entre os agentes econômicos e financeiros operando como jogadores decisivos (big players) e sua relação com o pagador de última instância, ou seja, o Estado como controlador das reservas coletivas impostas e a única entidade (instituição social) autorizada a impor novos impostos sobre a população, o que atinge uma sociedade como um todo. A variável conclusiva é relativamente simples, sendo quase que uma conclusão redundante. Em não havendo a identificação de agentes e causas, de modo que o fenômeno (da “crise”) é narrado a partir da premissa de determinar o nível do desvio na racionalidade dos mercados, portanto, o teorema de crise cíclica e sua inevitabilidade serão vistas como válidas.

Exposta esta premissa oculta, vamos mostrar o teorema (nosso) de que não pode haver mal-entendido (desinformação, equívoco decisório) quando os líderes de um oligopólio são detentores de informação perfeita (e coordenam os tempos e movimentos dos jogadores decisivos). Como assumido que não há um erro, a estória-cobertura que pretende explicar (através dos porta-vozes oficiais e oficiosos do capital financeiro), traz uma posição e opiniões que deformam a abrangência sobre o fenômeno, tornando-se um elemento de reforço de relações assimétricas, justificando as barreiras político-institucionais operadas a partir da teoria das portas giratórias (cuja comprovação é óbvia), estando em posições-chave os tomadores de decisão (top rank executives, CEOs, big shots etc.) decidindo sobre o destino de grandes orçamentos coletivos. Esses tomadores de decisão, muitas vezes também são ex-executivos localizados no topo da indústria de capital fictício, sendo os próprios co-responsáveis pela “fraude com nome de crise”.

Relações financeiras de causa e efeito

O conceito de hegemonia é de aplicação perfeita nesta análise porque observa-se a naturalização das barreiras político-institucionais exercidas pelos agentes econômico-financeiros (como bancos transnacionais, fundos de hedge, fundos de investimento); sendo que esta naturalização adquire divulgação e credibilidade através do exercício da barreira técnico-estética (mesclando o jargão do economês com fontismo das autoridades monetárias e econômicas) em funcionamento através da produção dos líderes mundiais de mídia. Estas são organizações privadas, de caráter econômico-ideológico, representadas hoje pela liderança incontestável de uma potência de difusão do pensamento neoclássico revigorado como o grupo The Economist.

Apenas como dado comparativo, um efeito ideológico semelhante hoje é produzido pelo Wall Street Journal (com ênfase dentro dos EUA), pertencendo a News Corp (de Rupert Murdoch), e que se alinha a favor de interpretações absurdas como a da “exuberância irracional” dos mercados, relembrando Alan Greenspan narrando a bolha das empresas ponto.com e retomando-se do “susto” de 1987 e de 1997 (crise da Rússia, deflagrada antes pelo Banco Barrings, na Malásia).

Nossas conclusões iniciais, e elas serão expostas ao longo da série, apontam que a revista e seus meios de comunicação digitais operam como parte de interpretações legitimadoras e “soluções derivadas” para a insolvência do sistema financeiro na zona euro e os EUA e, portanto, embora não sejam os tomadores de decisão, terminam por reforçar (e muito) as decisões tomadas em desafio consulta pública para a alocação de recursos coletivos sob controle corporações privadas e benefícios. Vê-se isso como um agendamento perverso (agenda setting pró-capital fictício) já que o veículo The Economist, assim como seus pares, a exemplo do citado Wall Street Journal, The Examiner, dentre outros poucos e seletos órgãos oficiosos do pensamento econômico neoclássico, termina por demarcar os temas de debate em alto nível decisório.

A perversidade desta imposição de pauta se dá por uma postura normativa nossa, reconhecendo que as vontades das pessoas e o exercício da sua decisão soberana, em uma democracia em qualquer escala, haverá sempre um obstáculo à livre circulação de capitais em geral e do capital em sua forma financeira em particular. É justamente por isso que os veículos que defendem a direita financeira têm de esconder, em suas coberturas e análise, as relações financeiras de causa e efeito, ocultando alguma explicação plausível para os fatos reais.

Valério Cruz Brittos e Bruno Lima Rocha

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