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As crianças Kaiowa de Ñande Ru Marangatu

category brazil/guyana/suriname/fguiana | indigenous struggles | opinião / análise author Friday January 13, 2006 20:38author by voluntári@s cmi Goiânia no MS Report this post to the editors

As crianças Kaiowa de Ñande Ru Marangatu

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As crianças Kaiowa de Ñande Ru Marangatu

Por voluntári@s do CMI - Goiânia em MS 12/01/2006 às 20:10

O número de crianças desnutridas estava sendo controlado e reduzido, mas após o despejo e as condições que as famílias estão vivendo nas margens da estrada esses números voltaram a crescer.

Existem três lugares onde estão localizadas xs habitantes tradicionais de Ñande Ru Marangatu. Elxs estão ou na aldeia de Campestre que foi doada pela prefeitura de Antônio João em 1980, ou na área de 26 há que foi emprestada em 1998 para que elxs esperassem a conclusão dos trabalhos do Grupo de Trabalho de Identificação, e agora mais recentemente nas margens da estrada MS 386 que liga os municípios de Bela Vista e Antônio João após serem expulsos de suas casas.

O despejo ocorreu no dia 15 de dezembro de 2005, por volta das 11 horas da manhã, os índios optaram por deixar suas casas de maneira pacífica para evitar um sangrento conflito, tanto que quando a polícia federal chegou com seu fortíssimo aparato já encontrou xs índios na estrada realizando seus cânticos, danças e rezas. Xs índios construíram barracos nas margens da estrada com palhas, pau e lonas, e ali irão aguardar nova decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). Esse recurso será julgado, agora, por todos os juízes encarregados, diferentemente da decisão arbitrária do Sr. Ministro Nelson Jobim que anulou a homologação da terra que havia sido deferida pelo presidente da república, Luiz Inácio Lula da Silva, em março de 2005.

São muitas as crianças que vivem nessas três áreas de Ñande Ru Marangatu. As que estão em suas casas, na área de 26 há e em Campestre, estão, de uma certa maneira, brincando do que querem. Elas sobem em árvores, correm em uma brincadeira tipo pique pega, brincam com o aro da roda de bicicleta, jogam pedras de estilingue para derrubar mangas do pé, brincam como se fossem bichos se escondendo atrás de arbustos, inventam brincadeiras com coisas que estão jogadas no chão (como um pedaço de mangueira), fazem arminhas com pedaços de pau, brincam com seus brinquedos vindos do Paraguai e das outras cidades próximas em especial os carrinhos, e jogam bola, aliás, jogam muita bola, desde futebol até jogos adaptados. Também existem muitos pedaços de boneca espalhados pelo chão, no meio do caminho, mas existem poucas crianças brincando com elas. Algumas dessas crianças tem aparelho de televisão nas casas onde existe energia elétrica e essas passam algumas muitas horas na frente da caixa de luz e cor.

Devido a todo o processo histórico de confinamento a que xs índios estão submetidos muitas de suas brincadeiras preferidas ficaram longe e difíceis de se concretizarem, como nos diz Edson de 11 anos: “o que mais gosto de brincar é de bola e de carrinho, gosto de tomar banho no açude, no dia quente, mas o açude é muito longe pra ir”. A água mais perto da aldeia de Campestre, onde vive Edson, e da área de 26 há é a da torneira, com certeza as áreas com água de Ñande Ru Marangatu estão nas mãos dos invasores e hoje se chamam fazendas.

Já as crianças que estão forçosamente vivendo nas margens da estrada de chão batido e com muitas pedras, a MS 384, não brincam muito. Existem poucos lugares com sombra, e o sol é muito quente praticamente todo o dia, e o movimento de carros e caminhões na estrada é muito grande levantando muita poeira. Esses fatores fazem com que a maioria das mães não deixe as crianças brincarem livremente as mantendo nas sombras formadas perto dos barracos construídos. Soma-se a isso o fato de muitas crianças estarem doentes, está havendo um surto de diarréia e vômitos e muitas estão em estado de desnutrição severa devido à escassez de alimentos. Eles estão recebendo cestas básicas, mas essas logo acabam, e falta a “mistura” como carne, faltando assim nutrientes importantes na alimentação infantil. “Nós na nossa terra podíamos plantar de tudo, tinha muita variedade pra comer, podíamos pescar e até caçar, agora a gente tem que comer essa comida plastificada, desculpa o termo, mas não sei como explicar melhor” desabafa o Kaiowa Hamilton que está acampado na beira da estrada. Os adultos desconfiam de outros fatores causadores das patologias, “as crianças estão ficando doentes acho que é por causa do emocional, sabe? Por causa da falta da liberdade, antes elas eram livres para brincar, corriam pra todo lado, ficavam na sombra das árvores, e agora não podem fazer nada, tem que ficar sempre perto da mãe. Acabou a liberdade!” como diz Leia, professora da escola indígena Marçal de Souza da aldeia de Campestre, relatando uma confidencia de uma mãe acampada.

A DESNUTRIÇÃO INFANTIL

A desnutrição infantil em Ñande Ru Marangatu já atingiu o índice mais alto dentre as aldeias da região. Os números eram tão altos que inclusive contribuíram para a sensibilização dos responsáveis em declarar aquela terra como indígena. Hoje podemos ver por lá adolescentes de 15 anos com tamanho de crianças de 10 anos, ele foi mais uma criança Kaiowá desnutrida.

Esse número de crianças desnutridas estava sendo controlado e reduzido, mas após o despejo e as condições que as famílias estão vivendo nas margens da estrada esses números voltaram a crescer. Hoje se encontra 27 crianças em situação de desnutrição severa, duas inclusive estão no hospital do município de Antônio João, e segundo os agentes da FUNASA o peso das crianças está reduzindo muito rápido o que pode levar ao número de desnutridos aumentar. “Precisamos voltar para nossa terra, se não nossas crianças podem vir a óbito.” Sebastião, agente da FUNASA em Ñande Ru Marangatu.

Email:: goiania@midiaindependente.org / contato@midiaindependente.org URL:: http://www.midiaindependente.org

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