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Os Anarquistas e os Movimentos Operários

category brazil/guyana/suriname/fguiana | movimento anarquista | opinião / análise author Tuesday December 06, 2011 20:23author by Errico Malatesta Report this post to the editors

Compilação de Vernon Richards de escritos de Errico Malatesta sobre a relação e o papel dos anarquistas com os movimentos populares.
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Hoje, a maior força de transformação social é o movimento sindical. Da sua direção depende, em grande medida, o curso que tomarão os acontecimentos e os objetivos da próxima revolução. Por meio das organizações fundadas para a defesa de seus interesses, os trabalhadores adquirem a consciência da opressão em que se encontram e do antagonismo que os divide de seus patrões, começam a aspirar uma vida melhor, habituam-se à luta coletiva e à solidariedade, e podem chegar a conquistar aquelas melhorias que são compatíveis com a persistência do regime capitalista e estatal.

Depois, quando o conflito mostra-se inconciliável, ocorre a revolução, ou senão, a reação. Os anarquistas devem reconhecer a utilidade e a importância do movimento sindical, devem favorecer seu desenvolvimento e fazer dele um dos pilares de sua ação, fazendo o possível para que esse movimento, em cooperação com outras forças progressistas existentes, desemboque numa revolução social que leve à supressão das classes, à liberdade total, à igualdade, à paz e à solidariedade entre todos os seres humanos.

Mas seria uma grande e fatal ilusão crer, como muitos fazem, que o movimento sindical possa e deva, por si mesmo, como conseqüência de sua própria natureza, levar a uma revolução dessa magnitude. Ao contrário, todos os movimentos fundados nos interesses materiais e imediatos – e um vasto movimento de trabalhadores não pode edificar-se sobre outras bases –, se lhes faltam o fermento, o impulso, o trabalho articulado dos homens de idéias, que combatem e sacrificam-se vislumbrando um porvir ideal, tendem fatalmente a adaptar-se às circunstâncias, a fomentarem o espírito conservador e o temor às mudanças naqueles que conseguem melhores condições, e, geralmente, terminam criando novas classes privilegiadas, servindo para sustentar e consolidar o sistema que desejam abater.

Disso surge a urgente necessidade de que existam organizações estritamente anarquistas que, tanto dentro como fora dos sindicatos, lutem para a realização integral do anarquismo e tratem de esterilizar todos os germens de degeneração e reação.

Mas é evidente que para atingir seus objetivos, as organizações anarquistas devem encontrar-se, em sua constituição e funcionamento, em harmonia com os princípios do anarquismo, ou seja, não devem estar contaminadas de nenhuma maneira pelo espírito autoritário. Essas organizações devem saber conciliar a livre ação dos indivíduos com a necessidade e o prazer da cooperação, servir para desenvolver a consciência e a capacidade organizativa de seus membros e constituir um meio educativo nos ambientes em que atuam, e uma devida preparação moral e material para o porvir que desejamos.[1]

A missão dos anarquistas é trabalhar e reforçar as consciências revolucionárias entre os organizados, e permanecer nos sindicatos sempre como anarquistas.

É claro que em muitos casos os sindicatos, pelas exigências imediatas, estão obrigados a acordos e compromissos. Eu não os critico por isso, mas é justamente por essa razão que devo reconhecer nos sindicatos uma essência reformista. Os sindicatos cumprem uma função fraternal entre as massas proletárias e eliminam os conflitos que, do contrário, poderiam aparecer entre alguns trabalhadores.

Enquanto os sindicatos devem realizar a luta para a conquista de benefícios imediatos – e, sem dúvidas, é justo que os trabalhadores exijam melhorias –, os revolucionários superam isso também. Eles lutam por uma revolução que exproprie o capital e pela destruição do Estado, de todo Estado, não importa como se chame.

Já que a escravidão econômica é fruto da servidão política, para eliminar uma é preciso abater a outra, ainda que Marx tenha dito o contrário. Porque o camponês leva o trigo ao patrão? Porque existe o policial que o obriga a isso. Por isso, o sindicalismo não pode ser um fim em si mesmo, e a luta deve também se dar no terreno político, visando extinguir o Estado.

Os anarquistas não querem dominar a União Sindical Italiana – não o desejariam ainda que todos os seus membros fossem anarquistas –, nem se propõem a assumir a responsabilidade das negociações. Nós não desejamos o poder, desejamos apenas as consciências; aqueles que desejam dominar preferem ter ovelhas para melhor guiá-las. Nós preferimos trabalhadores inteligentes, ainda que sejam nossos adversários, do que anarquistas que só o são por nos seguir como um rebanho.

Queremos a liberdade para todos; queremos que as massas façam a revolução para as próprias massas. O homem que pensa com seu próprio cérebro é preferível ao que apenas aprova tudo cegamente. Por isso, como anarquistas, defendemos a União Sindical Italiana, porque ela desenvolve as consciências das massas. Vale mais um erro cometido com consciência, crendo se estar fazendo o bem, do que uma coisa boa feita de maneira servil.[2]

Justamente porque estou convencido de que os sindicatos podem e devem ter uma função bastante útil, e talvez necessária, na passagem da sociedade atual para a sociedade igualitária, gostaria que eles fossem julgados com seu devido valor. Gostaria também que, sempre que os sindicatos manifestarem sua tendência natural de fechar-se em suas próprias corporações – propondo-se somente a defender interesses egoístas da categoria, ou, ainda pior, somente de seus filiados –, possamos combater essa tendência e impedir que os sindicatos transformem-se em órgãos conservadores.

Justamente pelo fato de reconhecer a imensa utilidade que podem ter as cooperativas – naquilo que diz respeito a acostumar os operários à gestão de seus assuntos e de seu trabalho, a funcionar, no começo da revolução, como órgãos prontos para a organização da distribuição dos produtos, e a servir como centros que poderão reunir a massa da população –, eu também combato o espírito mercantilista, que tende naturalmente a desenvolver-se nelas. Gostaria que elas estivessem abertas a todos, que não outorgassem nenhum privilégio a seus sócios e, sobretudo, que não se transformassem, como acontece com freqüência, em verdadeiras sociedades anônimas capitalistas, que empregam e exploram assalariados, e especulam com as necessidades do público.

As cooperativas e os sindicatos, tal como existem no regime capitalista, não levam naturalmente, por sua própria força, à emancipação humana (e é este o ponto em discussão), mas podem produzir o mal ou o bem. Podem hoje ser órgãos conservadores ou revolucionários, servir amanhã à reação ou à revolução, dependendo se vão estar limitados a sua função de defensores dos interesses imediatos dos filiados ou se vão estar animados pelo espírito anarquista, que os faz esquecer os interesses em benefício dos ideais. Por tal espírito anarquista entendo o sentimento amplamente humano que aspira ao bem de todos, à liberdade e à justiça para todos, à solidariedade e ao amor entre todos, e que não é um dom exclusivo dos anarquistas, propriamente, mas anima todos os homens de bom coração e de inteligência aberta.[3]

O movimento operário, mesmo com todos seus méritos e potencialidades, não pode ser, por si só, um movimento revolucionário, no sentido de negação das bases jurídicas e morais da sociedade atual.

Pode, como toda nova organização pode, no espírito daqueles que a iniciam e nas palavras dos estatutos, ter os mais elevados anseios e os mais radicais propósitos, mas se quiser exercer a função básica do sindicato de trabalhadores, ou seja, a defesa imediata dos interesses de seus membros, deve reconhecer as instituições que têm negado em teoria, adaptar-se às circunstâncias e tratar de obter cada vez mais, negociando e transigindo com os patrões e o governo.

Em uma palavra, o sindicato operário é, por sua própria natureza, reformista e não revolucionário. Os aspectos revolucionários devem ser-lhe introduzidos, desenvolvidos por obra constante de revolucionários que atuam fora e dentro dele, e não a manifestação natural e normal de sua função. Ao contrário, os interesses reais e imediatos dos trabalhadores associados, que o sindicato tem como missão defender, estão freqüentemente em disputa com as aspirações ideais de futuro e o sindicato só pode atuar de maneira revolucionária se estiver penetrado pelo espírito de sacrifício, e na medida em que os ideais estejam acima dos interesses. Ou seja, somente quando o sindicato deixar de ser estritamente econômico e se transformar em um grupo político e com ideais, o que não é possível nas grandes organizações que, para atuar, necessitam do consentimento da massa, sempre mais ou menos egoísta, temerosa e retrógrada. E isso não é o pior.

A sociedade capitalista está constituída de tal maneira que, em geral, os interesses de cada classe, de cada grupo, de cada indivíduo são antagônicos com os de todas as demais classes, dos demais grupos e de todos os outros indivíduos. Na prática da vida verifica-se os mais estranhos entrelaçamentos de harmonias e interesses entre classes e indivíduos que, do ponto de vista da justiça social, deveriam ser sempre amigos ou sempre inimigos. Ocorre com freqüência que, pese a já proclamada solidariedade proletária, os interesses de um grupo de trabalhadores opõem-se aos demais e harmonizam com os de um grupo de patrões; como ocorre também, pese a desejada fraternidade internacional, os interesses reais dos operários de um determinado país os vinculam com os capitalistas locais e os projetam na luta contra os trabalhadores estrangeiros. Devem servir de exemplo as atitudes das mais diversas organizações de trabalhadores frente à questão das tarifas aduaneiras, e a parte voluntária das massas de trabalhadores que tomam parte nas guerras entre os Estados capitalistas.

Não me estenderei citando muitos exemplos de contrastes de interesses entre as diversas categorias de produtores e consumidores: o antagonismo entre ocupados e desocupados, entre homens e mulheres, entre operários de um país e estrangeiros, entre trabalhadores que usufruem de um serviço público e os que trabalham nesses serviços, entre os que sabem um ofício e os que desejam aprendê-lo, etc. Recordarei especialmente o interesse que têm os trabalhadores da indústria de luxo para a prosperidade das classes ricas e os de múltiplos grupos de trabalhadores das diferentes localidades relevantes para que o “comércio” vá bem, ainda que à custa de outras localidades e com dano à produção útil para a massa. E o que dizer daqueles que trabalham em coisas prejudiciais à sociedade e aos indivíduos, quando não têm outro modo de ganhar a vida? Em tempos comuns, quando não há fé em uma revolução iminente, tente persuadir os trabalhadores da indústria de guerra, ameaçados pela falta de trabalho, dizendo que não peçam ao governo a construção de um novo couraçado. E resolva, se puder, por meios sindicais e fazendo justiça a todos, o conflito entre os estivadores que não têm outra maneira de ganhar a vida, senão monopolizando o trabalho em vantagem daqueles que já exercem o ofício há tempos, e os recém chegados, os temporários, que exigem seu direito ao trabalho e à vida.

Tudo isso, e tantas outras coisas que poderíamos falar, mostram que o movimento operário, por si mesmo, sem o fermento do ideal revolucionário, em contraste com os interesses presentes e imediatos dos trabalhadores, sem o impulso e a crítica dos revolucionários, longe de chegar a uma transformação da sociedade em benefício de todos, tende a fomentar os egoísmos de grupo e criar uma classe de trabalhadores privilegiada, sobreposta à grande massa dos deserdados.

Por isso, explica-se o fato geral de que, em todos os países, as organizações operárias, à medida que cresceram e se fortaleceram, transformaram-se em organizações conservadoras e reacionárias. Também se evidencia que aqueles que consagram seus esforços ao movimento operário com intenções honestas, vislumbrando uma sociedade de bem-estar e de justiça para todos, estão condenados a um trabalho de Sísifo e terão de recomeçar periodicamente seu trabalho.[4]

Isso pode não ocorrer se houver um espírito de rebelião na massa e uma luz ideal que ilumine e eleve os trabalhadores mais capazes e mais favorecidos pelas circunstâncias, e que estejam em condições de construir uma nova classe privilegiada. Sem dúvidas, se o sindicato permanecer no terreno da defesa dos interesses imediatos – que é seu território próprio, visto que os interesses não são harmônicos nem podem harmonizar-se dentro do regime capitalista –, a luta entre os trabalhadores será um fato natural e poderá, inclusive, em certas circunstâncias e em certos grupos, transformar-se em uma luta mais encarniçada do que aquela entre trabalhadores e exploradores.

Para convencer-se disso, basta observar o que são as maiores organizações operárias nos países em que existe muita organização e pouca propaganda ou tradição revolucionária.

Vejamos a Federação do Trabalho dos Estados Unidos da América. Ela não realiza a luta contra os patrões, senão no sentido em que lutam os comerciantes ao discutirem as condições de um contrato. A verdadeira luta é feita contra os que acabaram de chegar, forasteiros ou nativos, que querem ser admitidos para trabalhar em uma indústria qualquer, e também contra os fura-greves forçados, que não podem obter trabalho nas fábricas reconhecidas pela organização porque os dirigentes sindicais se opõem, e se vêem obrigados a oferecer-se nos open shops, ou seja, para aqueles patrões que, rebelando-se contra as imposições das organizações operárias, admitem como trabalhadores pessoas não-filiadas e aproveitam-se dessa circunstância para explorá-los de forma ainda mais desumana que os demais. Esses sindicatos norte-americanos, quando alcançam o número de membros que consideram suficientes para poder tratar de igual para igual com os patrões, buscam em seguida impedir a filiação de novos membros com taxas proibitivas de ingresso, ou fecham diretamente os registros e não admitem novos ingressos. Delimitam rigorosamente o ofício, ou a parte do ofício que corresponde a cada sindicato, e proíbem que um invada, ainda que minimamente, o campo de trabalho dos outros. Os trabalhadores qualificados desdenham dos trabalhadores manuais; os brancos desprezam e oprimem os negros; os “verdadeiros norte-americanos” consideram inferiores os chineses ou os italianos, etc.

Se ocorresse uma revolução nos Estados Unidos, os sindicatos fortes e ricos, certamente fariam oposição ao movimento, porque temeriam por suas riquezas e pela posição privilegiada que conseguiram conquistar. O mesmo aconteceria na Inglaterra e outros países.

Isso não é sindicalismo, sei muito bem. E os sindicalistas combatem essa tendência de os sindicatos transformarem-se em instrumentos de egoísmos baixos; fazem com isso um trabalho bastante útil. Mas essa tendência existe, e não é possível corrigi-la se não se extrapolar os métodos sindicalistas. Os sindicalistas serão muito valiosos no período revolucionário, com a condição de serem... o menos sindicalistas possível.[5]

Não é certo o que pretendem os sindicalistas, quando afirmam que a organização operária de hoje servirá para a sociedade futura e facilitará a mudança do regime burguês para o regime igualitário. Esta é uma idéia que fervilhava entre os membros da Primeira Internacional e, se me recordo bem, os textos de Bakunin falam que a nova sociedade chegaria com a inserção de todos os trabalhadores nas seções da Internacional. Mas isso me parece um equívoco.

As estruturas das organizações operárias existentes correspondem às condições atuais da vida econômica, tal como resultou da evolução histórica e da imposição do capitalismo. A nova sociedade não pode realizar-se, senão rompendo com as antigas estruturas e criando novos organismos correspondentes às novas condições e aos novos fins sociais.

Os operários estão hoje agrupados de acordo com os ofícios que exercem, as indústrias em que trabalham, os patrões contra os quais devem lutar ou as empresas comerciais às quais estão vinculados. Para quê serviriam esses agrupamentos, já que, suprimidos os patrões e alteradas as relações comerciais, devem desaparecer boa parte dos ofícios e das indústrias atuais, alguns definitivamente porque são inúteis e prejudiciais, e outros temporariamente porque serão úteis no futuro, mas não terão razão e nem possibilidade de existir na tormenta da crise social? Para quê servirão, para citar um exemplo entre mil, as organizações de canteiros de Carrara, quando for necessário que esses operários cultivem a terra e aumentem os produtos alimentícios, deixando para depois a construção dos monumentos e dos palácios marmóreos?

As organizações operárias, especialmente em sua forma cooperativista – que, por outro lado, no regime capitalista tendem a acabar com a resistência operária –, podem certamente servir para desenvolver nos trabalhadores as capacidades técnicas e administrativas, mas em tempos de revolução e para a reorganização social, elas devem desaparecer e fundir-se com os novos grupos populares que as circunstâncias exigirem. É tarefa dos revolucionários impedir que nelas desenvolva-se esse espírito de corpo que as converteria em um obstáculo para a satisfação das novas necessidades sociais.

Na minha opinião, o movimento operário é um meio que podemos empregar hoje para a elevação e a educação das massas, e amanhã, para o inevitável choque revolucionário. Mas é um caminho que tem seus inconvenientes e perigos. Nós, os anarquistas, devemos nos empenhar em neutralizar os inconvenientes, mensurar os perigos e utilizar o movimento, o máximo possível, para os nossos fins. Isso não quer dizer que desejamos, como foi dito, colocar o movimento operário a serviço de nossa organização. Certamente nos contentaríamos com o fato de todos os operários, todos os homens, se tornarem anarquistas, pois isso seria o limite extremo buscado idealmente por todo propagandista; mas, nesse caso, o anarquismo seria um fato e já não haveria lugar nem motivo para essas discussões.

No estado atual das coisas, gostaríamos que o movimento operário estivesse aberto a todas as propagandas de ideal e constituísse parte de todos os feitos da vida social, econômicos, políticos e morais; que ele vivesse e se desenvolvesse livre de toda dominação das organizações, tanto da nossa como das demais.[6]

Existem muitos companheiros que gostariam de unificar o movimento operário e o movimento anarquista, pois, dessa forma, seria possível dar às organizações operárias um programa claramente anarquista, como acontece na Espanha e na Argentina, um pouco na Itália, na França, na Alemanha, etc. Eles são chamados de “anarco-sindicalistas”, ou confundindo-se com outros que não são verdadeiramente anarquistas, adotam o nome de “sindicalistas revolucionários”.

É necessário explicar o que se entende por “sindicalismo”. Se se trata do porvir desejado, se por sindicato entende-se a forma de organização social que deveria substituir a organização capitalista e estatal, então, sindicalismo é o mesmo que anarquismo, e consiste, por isso, em uma palavra que só serve para confundir as idéias. Ou então o sindicalismo é uma coisa distinta do anarquismo e, assim sendo, os anarquistas não podem aceitá-la. De fato, entre as idéias e as propostas de futuro expostas, por um ou outro sindicalista, existem algumas autenticamente anarquistas, mas também existem outras que reproduzem, com nomes diferentes e de diversas maneiras, a estrutura autoritária que é causa dos males em relação aos quais, atualmente, nos lamentamos e, por isso, nada têm a ver com o anarquismo. Não proponho aqui o sindicalismo como um sistema social, já que não é isso que irá determinar a ação atual dos anarquistas, quando o assunto é movimento operário.

Aqui falamos do movimento operário no regime capitalista e estatal, e considera-se, pelo nome sindicalismo, todas as organizações operárias, todos os sindicatos constituídos para resistir à opressão dos patrões e para diminuir ou extirpar a exploração do trabalho humano por parte daqueles que detêm as matérias-primas e os instrumentos de trabalho. Essas organizações não podem ser anarquistas e não faz sentido querer que elas sejam, porque se assim fosse, elas não serviriam ao seu fim, e nem aos que se propõem os anarquistas quando delas participam.

O sindicato está organizado para defender os interesses atuais dos trabalhadores e melhorar sua situação na medida do possível, antes que estejamos em condições de fazer a revolução e transformar, com ela, todos os atuais assalariados em trabalhadores livres, livremente associados em benefício de todos.

Para que o sindicato possa servir ao seu próprio fim e, ao mesmo tempo, ser um meio de atuação e um campo de propaganda para uma futura transformação social radical, é necessário que ele reúna todos os trabalhadores, ou pelos menos todos os que aspirem melhorar suas condições de vida e que possam capacitar-se em alguma forma de resistência contra os patrões. Por acaso se quer esperar que os trabalhadores convertam-se em anarquistas antes de convidá-los para se organizar e antes de admiti-los na organização, invertendo assim a ordem natural da propaganda e do desenvolvimento psicológico dos indivíduos e fazendo uma organização de resistência quando já não há necessidade disso, porque a massa seria capaz de fazer a revolução? Nesse caso, o sindicato seria a mesma coisa que o grupo anarquista e não teria condições de obter melhorias e fazer a revolução. A alternativa consiste em ter escrito um programa anarquista e contentar-se com uma adesão formal, inconsistente, e reunir assim pessoas que seguiriam como um rebanho os organizadores para se dispersarem rapidamente ou passar para o lado inimigo na primeira ocasião em que for necessário mostrar que é realmente anarquista.

O sindicalismo – entendo o sindicalismo prático e não o teórico, que cada um imagina à sua maneira – é, por sua natureza, reformista. Tudo o que se pode esperar dele é que as reformas que pretende sejam conquistadas de maneira que sirvam à educação e à preparação revolucionária, abrindo o caminho para exigências cada vez maiores.

Toda fusão ou confusão entre o movimento anarquista e revolucionário e o movimento sindicalista termina tornando impotente o sindicato para sua finalidade específica, ou atenuando, falsificando e aniquilando o espírito anarquista.

O sindicato pode surgir com um programa socialista, revolucionário ou anarquista; com programas desse tipo nascem geralmente diversas organizações operárias. Mas elas permanecem fiéis ao programa enquanto são débeis e impotentes, ou seja, enquanto constituem, mais que organismos aptos para uma ação eficaz, grupos de propaganda iniciados e animados por uns poucos homens entusiastas e já convencidos. Porém, à medida que conseguem atrair as massas para seu seio e adquirir a força para exigir e impor melhorias, o programa antigo transforma-se em uma fórmula vazia com a qual ninguém se preocupa; a tática adapta-se às necessidades contingentes e os entusiastas de primeira hora adaptam-se, eles mesmos, ou cedem seu lugar aos homens “práticos”: aqueles que se preocupam com o hoje sem pensar no amanhã.

Certamente, há companheiros que, mesmo estando nas primeiras filas do movimento sindical, seguem sendo sincera e entusiasmadamente anarquistas, assim como há agrupamentos de trabalhadores que se inspiram nas idéias anarquistas. Mas seria uma crítica bastante fácil simplesmente buscar os mil casos em que aqueles homens e agrupamentos põem-se, na prática cotidiana, em contradição com as idéias anarquistas. A dura necessidade? De acordo. Não se pode promover um anarquismo puro quando se é obrigado a tratar com os patrões e as autoridades; não se pode deixar que as massas procedam por si mesmas quando se recusam a isso e pedem ou exigem chefes. Mas por que confundir o anarquismo com aquilo que não é anarquismo, e assumir, como anarquistas, a responsabilidade dos acordos e das adaptações necessárias, justamente pelo fato de que as massas não são anarquistas, mesmo que pertençam a uma organização que adotou o programa anarquista em seus estatutos?

Na minha opinião, os anarquistas não devem buscar que os sindicatos sejam anarquistas, mas devem atuar em seu seio em favor de fins anarquistas, como indivíduos, como grupos e como federações de grupos. Da mesma maneira que existem, ou que deveriam existir, grupos de estudo e de discussão, grupos para a propaganda escrita ou oral em meio ao público, grupos cooperativos, grupos que atuam nas oficinas, nos campos, nos quartéis, nas escolas etc., também deveriam formar-se grupos especiais nas diversas organizações que fazem a luta de classes.

Naturalmente, o ideal seria que todos fossem anarquistas e que as organizações funcionassem de maneira anárquica; mas está claro que, se assim fosse, não seria necessário organizar-se para a luta contra os patrões, porque eles já não existiriam. De acordo com as circunstâncias, da forma como elas são realmente, e dado o grau de desenvolvimento das massas em meio das quais se trabalha, os grupos anarquistas não deveriam pretender que as organizações sindicais atuassem como se fossem anarquistas, mas deveriam esforçar-se para que elas se aproximassem o máximo possível da tática anarquista. Se – para a vida da organização, as necessidades e a vontade dos organizadores – for necessário transigir, ceder, ter contatos impuros com a autoridade e os patrões, que assim seja, mas que outros o façam, e não os anarquistas, cuja missão é a de mostrar as insuficiências e a precariedade de todas as melhorias que podem ser obtidas no regime capitalista e de impulsionar a luta para soluções cada vez mais radicais.

Os anarquistas nos sindicatos deveriam lutar para que eles permanecessem abertos a todos os trabalhadores, qualquer que seja sua opinião e seu partido, com a única condição de forjar a solidariedade na luta contra os patrões; deveriam opor-se ao espírito corporativo e a qualquer pretensão de monopólio da organização e do trabalho. Deveriam impedir que os sindicatos servissem de instrumento de politicagem para fins eleitorais ou para outros propósitos autoritários, e praticar e defender a ação direta, a descentralização, a autonomia, a livre iniciativa; deveriam esforçar-se para que os organizados aprendam a participar diretamente da vida da organização e a não criar a necessidade de chefes e de funcionários permanentes.

Deveriam, em síntese, continuar sendo anarquistas, manter-se sempre em entendimento com os anarquistas e recordar que a organização operária não é o fim, senão simplesmente um dos meios, muito importante, para preparar a chegada da anarquia.[7]

Não se deve confundir o “sindicalismo”, que quer ser uma doutrina e um método para resolver a questão social, com a promoção, a existência e as atividades dos sindicatos operários… Para nós, não há grande importância se os trabalhadores querem mais ou menos; o importante é que aqueles que quiserem tratem de conquistar as vitórias, por si mesmos, com suas forças, com sua ação direta, em relação aos capitalistas e ao governo. Uma pequena melhoria arrancada pela própria força vale mais – por seus efeitos morais, e também por seus efeitos materiais – do que uma grande reforma concedida pelo governo ou pelos espertos capitalistas, ou ainda, pura e simplesmente por benevolência.[8]

Sempre compreendemos a grande importância do movimento operário e a necessidade dos anarquistas constituírem parte ativa e propulsora dele. E, geralmente, foi por iniciativa de nossos companheiros que se constituíram agrupamentos de trabalhadores mais vivos e progressistas. Sempre pensamos que, hoje, o sindicalismo é um meio para que os trabalhadores comecem compreender sua posição de escravos, desejar a emancipação e habituar-se à solidariedade com todos os oprimidos na luta contra os opressores. Amanhã, ele servirá como primeiro núcleo necessário para a continuidade da vida social e para a reorganização da produção sem patrões ou parasitas.

Mas sempre discutimos, e por vezes discordamos, sobre como se deveria concretizar a ação anarquista nas organizações de trabalhadores. Seria necessário entrar nos sindicatos ou permanecer fora deles, ainda que tomando parte nas agitações, e tratar de dar-lhes o caráter mais radical possível e colocar-se na primeira linha na ação e nos perigos? E, sobretudo, seria necessário ou não que, dentro dos sindicatos, os anarquistas aceitassem cargos de direção e se prestassem, por isso, aos acordos, aos compromissos, às adaptações, às relações com as autoridades e com os patrões, às quais esses organismos devem adaptar-se, por vontade dos próprios trabalhadores e por seu interesse imediato, nas lutas cotidianas, quando não se trata de fazer a revolução, mas de obter melhorias ou defender aquelas já conquistadas?

Nos dois anos que seguiram a paz, até as vésperas do triunfo da reação por obra do fascismo, não encontrávamos em uma situação singular. A revolução parecia iminente, e existiam, de fato, todas as condições materiais e espirituais para que ela fosse possível e necessária. Mas para nós, os anarquistas, faltavam, em grande medida, as forças necessárias para fazer a revolução com métodos e homens exclusivamente nossos: necessitávamos das massas, e as massas estavam certamente dispostas à ação, mas não eram anarquistas. Além disso, uma revolução feita sem a ajuda das massas, ainda que tivesse sido possível, não poderia ter dado origem senão a uma nova dominação, a qual, ainda que levada a cabo pelos anarquistas, teria sido a negação do anarquismo e corrompido os novos dominadores, para terminar com a restauração da ordem estatal e capitalista.

Retirar-se da luta, abster-se porque não podíamos fazer exatamente o que queríamos, teria equivalido a renunciar a toda possibilidade, presente ou futura, a toda esperança de impulsionar o movimento na direção em que desejávamos, e tornar evidente, não somente aquela vez, mas definitivamente, o fato de que nunca haverá massas anarquistas antes que a sociedade tenha se transformado econômica e politicamente, e a mesma situação voltará a acontecer todas as vezes que as circunstâncias possibilitarem uma tentativa revolucionária.

Seria necessário, portanto, ganhar a qualquer custo a confiança das massas, colocar-se em situação de poder impulsioná-las para as ruas e, para isso, parecia útil conquistar cargos de direção nas organizações operárias. Todos os perigos de domesticação e de corrupção passaram para o segundo plano, e, além disso, supúnhamos que não teriam tempo de produzir-se. Assim, chegou-se à conclusão de deixar a cada um a liberdade de decidir, segundo as circunstâncias ou como acreditasse ser melhor, com a condição de nunca esquecer que era anarquista e de sempre guiar-se pelo interesse superior da causa anarquista.

Mas agora, depois das últimas experiências, e em vista da situação atual, parece-me que convém voltar a discutir sobre essa questão e ver se não seria oportuno modificar a tática, em relação a esse ponto importantíssimo de nossa atividade. Do meu ponto de vista, é necessário entrar nos sindicatos, porque, permanecendo fora, seremos vistos como inimigos, nossa crítica será considerada com desconfiança, e nos momentos de agitação seremos considerados intrusos e nossa ajuda será recebida com má vontade.

Em relação a solicitarmos e aceitarmos o posto de dirigentes, creio que, em linhas gerais, em tempos calmos é melhor evitar. Penso, contudo, que o problema e o perigo não residem tanto no fato de ocupar um posto de direção – o que, em certas circunstâncias, pode ser útil e até necessário –, mas em perpetuar-se nessa posição. Seria necessário, a meu ver, que os dirigentes se renovassem o mais freqüentemente possível, tanto para capacitar um número muito maior de trabalhadores nas funções administrativas, quanto para impedir que o trabalho de organização transforme-se em um ofício que faça com que aqueles que o realizam levem para lutas operárias a preocupação de não perder o emprego. E tudo isso, não somente no interesse atual da luta e da educação dos trabalhadores, mas também, e, sobretudo, vislumbrando o desenvolvimento da revolução depois que elas se iniciem.

Os anarquistas se opõem, com razão, ao comunismo autoritário, que supõe um governo que, ao querer dirigir toda a vida social e colocar a organização da produção e a distribuição das riquezas sob as ordens de seus funcionários, não pode deixar de produzir a mais odiosa tirania e a paralisação de todas as forças vivas da sociedade.

Os sindicalistas, aparentemente de acordo com os anarquistas na aversão ao centralismo estatal, querem prescindir do governo substituindo-o pelos sindicatos, e dizem que são eles que devem se apoderar das riquezas, confiscar os provimentos, distribuí-los, organizar a produção e a troca. Eu não veria inconveniente nisso se os sindicatos abrissem as portas para toda a população e deixassem os dissidentes em liberdade para atuar e tomar sua parte. Mas essa expropriação e essa distribuição não podem ser feitas, na prática, de maneira tumultuada; as massas não podem realizá-las, ainda que estejam agrupadas nos sindicatos, sem produzir um desperdício funesto de riquezas e o sacrifício dos mais fracos por obra dos mais fortes e brutais; menos ainda poderiam ser estabelecidos, entre as massas, os acordos entre as diversas localidades e as trocas entre as distintas corporações de produtores. Seria necessário realizar essa tarefa por meio de deliberações tomadas em assembléias populares levadas a cabo por grupos e indivíduos que se oferecessem voluntariamente ou por aqueles designados regularmente.

No entanto, se houver um número restrito de indivíduos que, pelo hábito longínquo, forem considerados chefes dos sindicatos, e se houver secretários permanentes e organizadores oficiais, serão eles que estarão, automaticamente, encarregados de organizar a revolução, e tenderão a considerar intrusos e irresponsáveis aqueles que quiserem tomar iniciativas independentes deles, desejando, ainda que com as melhores intenções, impor sua vontade, inclusive pela força.

Nesse caso, o regime sindicalista se transformaria rapidamente na mesma mentira e na mesma tirania que se transformou a assim chamada ditadura do proletariado. O remédio contra esse perigo e a condição para que a revolução seja verdadeiramente emancipadora dependem da formação de um grande número de indivíduos capazes de ter iniciativas e de realizar tarefas práticas, em habituar as massas a não abandonar a causa de todos nas mãos de qualquer um e de delegar, quando a delegação for necessária, somente para cargos determinados e por tempo limitado. Para criar tal situação e tal espírito, o meio mais eficaz é o sindicato, se ele estiver sendo organizado e gerido com métodos verdadeiramente libertários.[9]

[A União dos Trabalhadores nasceu da] necessidade de sanar as carências atuais, do desejo de melhorar as próprias condições e de defender-se contra as possíveis pioras; nasceu o sindicato operário, que é a união daqueles que, privados dos meios de trabalho e obrigados, portanto, a viver deixando-se explorar por quem possui esses meios, buscam na solidariedade com seus companheiros a força necessária para lutar contra os exploradores. Nesse terreno da luta econômica, ou seja, da luta contra a exploração capitalista, teria sido possível e fácil chegar à unidade de classe dos proletários contra a classe dos proprietários.

Mas acontece que os partidos políticos – que frequentemente criaram e animaram, de início, o movimento sindical – quiseram servir-se das associações operárias como campo de recrutamento e instrumento para seus fins específicos, de revolução ou de conservação social. Daí surgiram as divisões da classe operária, que se organizou em diversos agrupamentos sob a inspiração de distintos partidos. Daí surgiu o propósito daqueles que querem a unidade e tratam de retirar os sindicatos da tutela dos partidos políticos.

Entretanto, nessa afirmativa de acabar com a influência dos partidos políticos, de “excluir a política dos sindicatos”, escondem-se um equívoco e uma mentira. Se por política se entende aquilo que diz respeito à organização das relações humanas e, mais especificamente, as relações livres ou forçadas entre cidadãos e a existência ou não de um “governo” que assuma para si os poderes públicos e se sirva da força social para impor a própria vontade e defender os próprios interesses e os da classe da qual ele emana, é evidente que essa política permeia todas as manifestações da vida social, e que uma organização operária não pode ser realmente independente dos partidos, a menos ela que se transforme num partido.

É por isso que não adianta esperar e, para mim, nem desejar, que a política seja excluída dos sindicatos, visto que toda questão econômica de alguma importância se transforma automaticamente em uma questão política, e é no terreno político, ou seja, na luta entre governantes e governados, em que se deverá resolver definitivamente a questão da emancipação dos trabalhadores e da liberdade humana. É natural e está claro que deve ser assim.

Os capitalistas querem manter a luta no terreno econômico enquanto os trabalhadores exigirem pequenas e, geralmente ilusórias, melhorias, mas assim que vêem diminuir seus lucros ou sentem seus privilégios ameaçados, apelam para o governo, e se ele não se mostrar suficientemente solícito e forte para defender-los, como ocorreu nos recentes casos da Itália e da Espanha, empregam suas riquezas para financiar novas forças repressivas e constituir um governo que melhor lhes possa servir. Portanto, as organizações operárias devem, necessariamente, possuir uma linha de conduta frente a ação atual ou potencial dos governos.

Pode-se aceitar a ordem constituída, reconhecer a legitimidade do privilégio econômico ou do governo que o defende, ou contentar-se com as manobras entre as diversas frações burguesas para obter alguma melhoria, como ocorre nas grandes organizações que não são animadas por ideais elevados, como a Federação Americana do Trabalho e boa parte das trade-unions inglesas. Com isso, essas organizações transformam-se, na prática, em instrumentos dos próprios opressores e renunciam a própria libertação da servidão.

Mas, se se aspira à emancipação integral, ou, inclusive, se se desejam somente as melhorias definitivas que não dependem da vontade dos patrões e das alternativas do mercado, não há, senão, dois caminhos para libertar-se da ameaça do governo. Apoderar-se do governo e dirigir os poderes públicos, a força da coletividade absorvida pelos governantes, visando a supressão do sistema capitalista; ou debilitar e destruir o governo para deixar que os interessados, os trabalhadores, todos aqueles que de alguma maneira realizam o trabalho manual e intelectual para a manutenção da vida social, fiquem em liberdade para prover as necessidades individuais e sociais da maneira que melhor considerarem, excluindo o direito e a possibilidade de impor com a violência a vontade de uns sobre os outros.

Como fazer para manter a unidade quando existem aqueles que desejam servir-se da força da associação para chegar ao governo, e aqueles que acreditam que todo governo é necessariamente opressor e nefasto e, portanto, desejam fazer com que essa mesma associação caminhe para a luta contra toda instituição autoritária presente ou futura? Como manter juntos os social-democratas, os comunistas de Estado e os anarquistas? Eis aqui o problema. Um problema do qual se pode esquivar em certos momentos, nas ocasiões de uma luta concreta que reúna todos os homens, ou pelo menos uma grande massa com interesses e desejos em comum, mas que ressurge sempre e não é fácil resolver, enquanto existirem condições de violência e de diversidade de opinião sobre o modo de resistir à violência.

O método democrático, ou seja, aquele que consiste em deixar que uma maioria decida, “mantendo a disciplina”, não resolve a questão, porque também ele é uma mentira e não o promovem sinceramente senão aqueles que têm ou crêem ter a maioria. Deixando de lado o fato de que “a maioria” é sempre, além do mais, a dos dirigentes, e não a das massas, cujos desejos geralmente são ignorados ou falsificados, não se pode pretender, nem sequer desejar, que quem está profundamente convencido de que a maioria segue um caminho desastroso sacrifique suas próprias convicções e assista passivamente ou, pior ainda, apóie aquilo que considera ser um mal.

A afirmação de que é necessário deixar fazer e tratar de conquistar, no seu tempo, o consenso da maioria, assemelha-se ao sistema que do qual se utilizam os militares: “sofra a pena e então reclame”; é um sistema inaceitável, visto que o que hoje se faz destrói a possibilidade de proceder amanhã de outra maneira.

Existem questões em torno das quais convém adaptar-se à vontade da maioria, porque os danos da divisão seriam maiores do que aqueles que derivariam de um determinado erro. Há circunstâncias em que a disciplina constitui um dever, porque deixá-la de lado seria deixar de lado a solidariedade entre os oprimidos e significaria a traição frente ao inimigo. Mas quando se está convencido que a organização toma um caminho que compromete o futuro e faz com que seja difícil remediar o mal produzido, é um dever rebelar-se e opor-se, ainda que com o risco de provocar uma cisão.

Mas então, qual é a saída para essas dificuldades, e qual é a conduta que deveriam ter os anarquistas em relação a essa questão? Para mim, o remédio seria o entendimento geral e a solidariedade nas lutas puramente econômicas, a completa autonomia dos indivíduos e dos diversos agrupamentos nas lutas políticas. Mas é possível perceber a tempo quando a luta econômica se transforma em luta política? E ainda: existem lutas econômicas importantes que a intervenção do governo não as torne políticas desde o princípio? De todo modo, nós, os anarquistas, deveríamos levar nossa posição a todas as organizações para defender a união entre todos os trabalhadores, a descentralização, a liberdade de iniciativa, no campo comum da solidariedade contra os patrões.

E não devemos dar muita importância ao fato de que a mania de centralização e autoritarismo de alguns e a intolerância de outros a toda disciplina, inclusive a razoável, leve a novos fracionamentos, pois se a organização dos trabalhadores é uma necessidade primordial para as lutas de hoje e para as realizações de amanhã, não há muita importância na existência e na duração desta ou daquela organização determinada. O essencial é que se desenvolva o espírito de organização, o sentimento de solidariedade, a convicção da necessidade de cooperar fraternalmente para combater os opressores e chegar a uma sociedade em que todos possamos gozar de uma vida verdadeiramente humana.[10]

NOTAS

1 Il Risveglio, 1–15 de outubro de 1927.
2 Umanità Nova, 14 de março de 1922.
3 Umanità Nova, 13 de abril de 1922.
4 Umanità Nova, 6 de abril de 1922.
5 Umanità Nova, 13 de abril de 1922.
6 Umanità Nova, 6 de abril de 1922.
7 Pensiero e Volontà, 16 de abril de 1925.
8 Umanità Nova, 6 de abril de 1922.
9 Fede!, 30 de setembro de 1922.
10 Pensiero e Volontà, 16 de fevereiro de 1925.

* Compilação: Vernon Richards
* Tradução: Júnior Bellé
* Revisão: Felipe Corrêa

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