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Terremoto no Haiti: solidariedade ao povo haitiano

category américa central / caribe | miscellaneous | opinião / análise author Monday January 18, 2010 15:39author by José Antonio Gutiérrez D. Report this post to the editors

13 Jan., 2010

Não estamos ante um simples desastre natural, como os meios de comunicação nos querem fazer acreditar: estamos, na verdade, ante uma tragédia de causas sociais. [Français] [English] [Castellano] [Ελληνικά]

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Terremoto no Haiti: solidariedade ao povo haitiano

José Antonio Gutiérrez D.


A tragédia mais uma vez bate às portas do Haiti. Desta vez na forma de um terrível terremoto de grau 7 [na escala Richter] que devastou o país, convertendo-o em ruínas. Ainda não se tem dados exatos do número de vítimas, mas a Cruz Vermelha fala em 3 milhões de vítimas e o número de mortos pode inclusive alcançar os 100.000 – uma cifra horrenda se considerarmos que este país conta com somente 8 milhões de habitantes. As imagens que nos chegam, de sobreviventes esmagados sob ruínas clamando por ajuda, de crianças feridas, de familiares caídos aos prantos por seus entes queridos mortos, retratam o horror desta tragédia melhor do que mil palavras.

Neste momento tão duro, nos posicionamos como sempre junto ao povo haitiano. Toda nossa solidariedade a eles, fazemos nossa sua dor, e dessa forma convocamos nossos leitores e todas as pessoas conscientes a que atendam ao chamado de ajuda lançado por diversas organizações humanitárias que estão tentando oferecer algum tipo de conforto nesta situação tão dramática.

Da mesma maneira, não podemos deixar de sentir justa indignação com a hipocrisia de uma “comunidade internacional” que volta a derramar lágrimas de crocodilo ante a “incompreensível tragédia” que sofre o povo haitiano (utilizando as palavras de Obama), mas que não reconhece a enorme responsabilidade que ela mesma tem perante esta – o impacto do terremoto pôde ser tão devastador porque estamos ante um povo previamente devastado por um século de intervenções militares, de saque descarado, de regimes autocráticos respaldados pela França e Estados Unidos e de políticas das organizações financeiras internacionais destinadas a arruinar o povo haitiano em benefício de uns poucos. Um país convertido numa enorme maquila[*], onde a maioria da população subsiste a duras penas graças à caridade. Aqui não estamos ante um simples desastre natural, como os meios de comunicação nos querem fazer acreditar: estamos, na verdade, ante uma tragédia de causas sociais. O terremoto simplesmente terminou a tarefa começada pelos Estados Unidos, França, Canadá, a MINUSTAH (as tropas de ocupação da ONU), o Fundo Monetário Internacional e organizações de desenvolvimento fraudulentas como a US AID.

A nenhum deles importou o povo haitiano enquanto ele se afogava na dívida externa contraída de maneira completamente fraudulenta pela ditadura dos Duvalier, e nunca tiveram maior “angústia” em extrair até o mais miserável centavo de um país em ruínas e com uma população faminta.

A nenhum deles importou o povo haitiano quando “tiveram” que impor programas de ajuste estrutural nos anos ’90 que trouxeram resultados calamitosos para a população, como foi a redução de tarifas para a importação de alimentos como o arroz, que resultou na destruição absoluta do campesinato, que foi empurrado para as favelas de Porto Príncipe – deixando um país até então capaz de se alimentar na fome mais brutal, como demonstraram as rebeliões de famintos em Abril de 2008.

A nenhum deles importou o povo haitiano quando durante as ditaduras de Duvalier, Namphy, Avril, Cedras e Latortue (todas as quais contaram com a bênção de Washington e Paris) se violou, mutilou, desapareceu e massacrou milhares de haitianos. Alguns, como Jean Claude Duvalier, vivem luxuosamente na França. Ou como Raoul Cedras, que graças ao dinheiro que recebeu como parte do acordo com os Estados Unidos, encerrou sua ditadura se converteu num respeitável homem de negócios no Panamá.

A nenhum deles importou o povo haitiano quando apareceram milhares de denúncias dos abusos sexuais cometidos pelas tropas da missão “civilizadora” da MINUSTAH, que hoje continuam ocupando, violando e assassinando impunemente no Haiti, como o demonstra o regresso ao Sri Lanka de mais de uma centena de soldados desse país em novembro de 2007, que durante seu serviço foram culpados de várias centenas de violações e que em seu país jamais enfrentaram sequer uma encenação de justiça;

A nenhum deles importou o povo haitiano quando as maquilas [*] distorceram enormemente a economia do país, pagando a seus operários salários de miséria enquanto os abusos de toda natureza estão na ordem do dia;

A lista de razões para estar indignado ante as hipócritas declarações de pesar de um Sarkozy, de um Obama, de um Ban Ki-Moon, de um Lula, é muito extensa para continuarmos. Mas digamos simplesmente que quanto mais miserável um povo, mais fortemente ele será golpeado pelos azares da natureza. E é essa miséria que foi causada pelas forças de um modelo imposto mediante ditaduras e pressões internacionais: se três quartos da população de Porto Príncipe vivem em bairros miseráveis que cresceram de mãos dadas com a destruição da estrutura econômica do Haiti (principalmente do campo), em meio a construções precárias, podemos nos surpreender de que os mortos se contem aos milhares?

Esperamos que a solidariedade dos povos do mundo com o Haiti seja contundente. Como se tem dito muitas vezes, a solidariedade é a ternura dos povos. E esperamos que essa solidariedade, da qual milhares de vidas dependem hoje, seja transmitida e não se prenda em um emaranhado de ONGs e organizações de ajuda humanitária. Sem dúvidas, existem muitas organizações de inquestionável reputação como a Cruz Vermelha que estarão realizando valiosos trabalhos de assistência; mas junto a ela também aparecem tubarões que lucram com estas tragédias com os quais devemos ficar de olho – são as organizações populares haitianas as que devem ficar alertas para que a ajuda chegue a quem necessita dela e seja distribuída de maneira eficiente. Esperamos também que não chegue uma invasão de “homens brancos” por parte de certas ONGs para realizar trabalhos, como construir casas, que os próprios haitianos podem realizar perfeitamente e que, com níveis de desempenho beirando os 80%, não há razão pela qual não poderiam fazê-lo.

Para terminar, chamamos a solidariedade. Não somente ante esta tragédia que nos comove a todos os que temos o coração no peito, mas solidariedade agora e sempre, uma solidariedade que vá além desta conjuntura; uma solidariedade que escava sob as ruínas para entender que a tragédia haitiana é muito mais profunda que um terremoto de grau 7 na escala Richter; enfim, uma solidariedade que se comprometa a repensar as relações que mantém as grandes potências com nossa região do mundo, relação da qual o Haiti não é senão o exemplo mais terrível. Uma solidariedade que nos mova a começar a questionar cada vez mais o papel que desempenham, por exemplo, as tropas da maioria dos países latino-americanos numa ocupação militar que tem o efeito tão devastador quanto o deste terremoto, mesmo que agora queiram apagar isto posando em algumas fotos repartindo sacos de arroz com as vítimas.

Solidariedade ao povo haitiano agora e sempre!


[*] Maquilas são empresas onde se montam peças ou embalagens de produtos destinados à exportação, instaladas pelas grandes transnacionais nos países periféricos para diminuição de custos em determinado estágio da produção. Essas fábricas normalmente se localizam nas chamadas “zonas de exportação” ou “zonas francas”, sob regimes de exceção econômicos em que contam com uma série de benefícios como a isenção de impostos, empregando uma mão-de-obra extremamente precarizada, com baixíssimos salários e ausência quase que total de direitos trabalhistas, constituindo um exemplo vivo da “escravidão moderna”. (Nota do Passa Palavra)

Tradução: Passa Palavra

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