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Minha Pátria é o Mundo Inteiro

category brazil/guyana/suriname/fguiana | história do anarquismo | feature author Monday June 29, 2009 19:00author by Alexandre Samis - FARJ Report this post to the editors

Neno Vasco, Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário em Dois Mundos

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A capa do livro

Publicado em Portugal o livro Minha Pátria é o Mundo Inteiro, de Alexandre Samis, retrata com profundidade e seriedade a biografia de Neno Vasco, importante anarquista luso-brasileiro que teve relevante participação no movimento sindical de sua época. Por meio da vida do militante, o leitor conhecerá, além do contexto histórico de Brasil e Portugal, significativa parte das discussões que permearam o universo libertário no período. O livro é uma obra obrigatória para aqueles que se interessam pela história do anarquismo e das próprias mobilizações populares do início do século XX.

Aqui, apresentamos uma pequena resenha escrita para o periódico A Batalha, de Portugal, e depois uma apresentação do livro, inédita, escrita pelo autor.

Felipe Corrêa


MINHA PÁTRIA É O MUNDO INTEIRO

NENO VASCO, ANARQUISMO E

SINDICALISMO REVOLUCIONÁRIO EM DOIS MUNDOS

Alexandre Samis

editora Letra Livre, Lisboa, 2009, 455 páginas



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Depois da reedição (fac-similada) de O Socialismo Libertário ou o Anarquismo, de Silva Mendes, a primeira obra teórica de vulto sobre anarquismo que se publicou em Portugal, Letra Livre dá-nos agora a biografia de uma das grandes figuras do anarquismo luso-brasileiro, tanto do ponto de vista intelectual como do de atividade militante e, acima de tudo, como exemplo de exigência ética. Este laborioso trabalho de pesquisa empreendido por Alexandre Samis procurou, para além duma exaustiva pesquisa sobre a vida e obra do biografado, situar essa vida nas condições econômicas, políticas, sociais e intelectuais da sua época, tanto em Portugal como no Brasil e, em menor medida, no resto do mundo.

Neno Vasco que nasceu em Penafiel (1887), foi aos 9 anos com o pai e a madrasta para São Paulo, onde se demorou cerca de dois anos, quando o Brasil ainda era uma monarquia, e regressou a Portugal para freqüentar o liceu (Amarante) e o curso de Direito (Coimbra) onde se graduou em 1901. Em dezembro desse mesmo ano voltou ao Brasil, já então uma República, onde desenvolveu a atividade militante que iniciara em Coimbra e no Porto. Aí constituiu família, regressando a Portugal em 1911, de onde se ausentara no reinado de D. Carlos e que era então uma jovem República. Também aqui um interessante paralelismo entre a evolução política nos dois países. Em Portugal prosseguiu intensa militância, nomeadamente através de constante participação na imprensa operária e libertária. Veio a falecer de tuberculose, algum tempo depois da esposa, a 15 de setembro de 1920.

A sua atividade militante decorreu pois em partes iguais no Brasil e em Portugal, uma década em cada um deles, embora na realidade ele tivesse sempre mantido uma participação ativa na imprensa portuguesa quando vivia no Brasil e na imprensa brasileira quando vivia em Portugal. Dificilmente poderia Alexandre Samis escolher melhor exemplo de militante luso-brasileiro. Mas talvez a faceta mais aliciante do livro seja a permanente correlação entre a vida, evolução ideológica e atividade militante de Neno Vasco e as circunstâncias históricas e o ambiente social em que a sua vida e ação decorreram.

Essa recriação pormenorizada do meio implicou um enorme trabalho de investigação, com recurso às mais variadas fontes (jornalísticas, literárias, históricas, econômicas, sociológicas, correspondência, etc.) que exigiu a consulta não apenas de arquivos nacionais de Portugal e Brasil, mas também de arquivos estrangeiros. O caráter erudito desta obra, que foi a sua tese de doutoramento, não apaga a fluidez e vivacidade da biografia, que se lê de um fôlego com curiosidade e interesse constantes. À admiração e amizade que nos liga ao autor não podemos deixar de acrescentar também uma palavra de reconhecimento à Livraria Letra Livre por esta meritória iniciativa editorial.

publicado em A Batalha, escrito por L.G.S.




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APRESENTAÇÃO


O presente trabalho surgiu pela necessidade de encontrar algumas respostas a questões que se apresentaram por ocasião da elaboração da pesquisa intitulada Clevelândia do Norte: anarquistas, repressão e exílio interno no Brasil dos anos 20.[1] Na referida pesquisa procuramos, além de promover uma ampla devassa nos documentos relativos à Colônia Penal Agrícola de Clevelândia, nos anos 20, resgatar o papel dos militantes anarquistas na organização do movimento operário. A execução de tal tarefa nos levou a estabelecer uma estreita relação entre a constituição dos órgãos de repressão do Estado e o aumento da importância das organizações operárias já na década de 10. Observamos, além disso, que para o desterro da Clevelândia[2] foram remetidos, levando-se em consideração os grupos operários organizados ideologicamente, apenas os “radicais anarquistas”. Tal constatação serviu para a fundamentação das hipóteses iniciais, além de demonstrar a necessidade de se repensar a importância dos libertários para a conformação do quadro político-social nos anos de 1920.

Entretanto, ao longo de nossa investigação, nos deparamos com algumas significativas lacunas na historiografia correspondente ao tema. Entre elas, podemos destacar a falta de um estudo da constituição das relações do movimento operário anarquista, não só entre os grupos no território brasileiro, como também entre os que aqui se encontravam e seus congêneres no exterior. E, em conformidade com esta constatação, em que pese a significativa contribuição de vários contingentes de imigração, percebemos que, ao menos para a organização do operariado no antigo Distrito Federal, as relações levadas a efeito pela chegada do elemento português encontravam-se ainda muito pouco estudadas.

Dessa forma, nos pareceu bastante oportuna a idéia de utilizar a biografia de um militante português que, pelo tempo de permanência e importância que possuiu em iniciativas concretas no Brasil, servisse de fio condutor para uma investigação que, de alguma forma, desse conta de hipóteses preliminares.

A escolha para tanto recaiu sobre a figura de Neno Vasco[3], um militante que pela sua importância, primeiro no Brasil e depois em sua terra natal, junto aos órgãos da imprensa radical, podia ser encarado como um dos indivíduos representativos da integração e colaboração entre as experiências sindicais dos dois países. Ainda que referida em trabalhos que possuem o anarquismo como objeto, tanto na historiografia portuguesa quanto brasileira, a trajetória de Neno Vasco não havia sofrido ainda um estudo da sua “década brasileira” e, muito menos, do que esta havia representado para os restantes nove anos em que atuaria em Portugal, após seu retorno em 1911.

Para esse fim, envidamos esforços no sentido de investigar os passos dados por Neno Vasco no Brasil, o que nos descortinou um quadro bastante elucidativo da importância dos jornais operários para uma projeção, ou mesmo, diagnóstico dos primeiros anos do anarquismo no país. Muito pouco estudada, a permanência do militante português foi sem dúvida fundamental para o enriquecimento das discussões sobre métodos de ação ou inserção na sociedade. Podemos mesmo afirmar que Neno Vasco foi um dos elementos mais significativos daquela “geração militante”, de responsáveis orgânicos pela visibilidade social que viria a ter o anarquismo nas décadas posteriores.

Ao chegar ao Brasil em 1901[4], Neno Vasco articulou-se muito depressa com os anarquistas residentes no país. Em São Paulo, ajudou a criar, no ano de 1902, o primeiro jornal libertário de língua portuguesa de publicação regular, O Amigo do Povo.[5] Dessa iniciativa participaram alguns dos mais conhecidos anarquistas do Rio de Janeiro, imigrantes e nacionais, através da elaboração de artigos e divulgação do periódico.[6] A importância de tal empreendimento, assim como o de outros da mesma natureza, não se esgotava na simples exposição diletante de opiniões. Jornais como O Amigo do Povo, cumpriram o papel de forum deliberativo informal do movimento anarquista nos seus primeiros anos. Forjaram, mesmo na esfera pública burguesa[7], um lugar definido para o livre debate das idéias, o locus fundamental para a circulação de teses, traduções e sínteses políticas. O primeiro Congresso Operário Brasileiro, de 1906, no Rio de Janeiro, foi, não apenas tributário, mas um dos resultados concretos da mobilização, em grande parte animada pela imprensa libertária, de iniciativas e energias que se encontravam dispersas.

Neno Vasco, apesar de radicado no Brasil, não negligenciou os contatos com as publicações libertárias no seu país de origem. Ao longo de sua permanência no território brasileiro manteve uma disciplinada rotina de correspondência enviando para Portugal artigos, notícias e traduções. Muito do que Neno Vasco viria a registrar em seus escritos partiria de uma profunda reflexão da realidade brasileira à luz da perspectiva internacionalista. Dessa forma, o intelectual que havia chegado ao Brasil, recém bacharel de Coimbra[8], aperfeiçoava sua aguda capacidade crítica a partir da vivência militante fora da Europa.

Nesse sentido é que aprofundamos nossa hipótese central quando evidenciamos, pela exposição exuberante de elementos empíricos, a formação de militantes estrangeiros na vivência com outros nascidos no Brasil. Relação essa que se dá na perspectiva horizontal, sem a ascendência do “elemento estrangeiro” sobre os que, sem sair do país, adquiriram alguma experiência colocando-a a serviço do ideal anarquista. Tais contatos “interétnicos”, principalmente entre espanhóis, italianos, brasileiros e portugueses, de forma nenhuma aconteciam para que propedeuticamente determinado grupo ditasse um único caminho para os demais. Como também, sequer por afinidades de origem, enfileiravam-se os anarquistas em torno de uma corrente específica da complexa malha estratégica libertária.

Assim, as fontes italianas que influenciaram Neno Vasco, até que este assumisse convictamente o anarquismo comunista de Malatesta, vieram simultaneamente da própria Itália, que no Brasil chegava pelo braço do imigrante, como igualmente da Argentina, que por fenômeno análogo, recebia o mesmo contingente étnico. Tais idéias, entretanto, longe de permanecerem “puras”, trazidas de fora e preservadas de qualquer “influencia interpretativa”, misturaram-se em favor da resolução de problemas específicos encontrados na América. A nova realidade levou a uma espécie de “sincretismo” que, se por um lado, preservava o vocabulário político comum ao europeu, por outro facultou aos anarquistas nas suas “relações americanas” uma sensibilidade única. Tal singularidade foi mesmo evidenciada por Neno Vasco quando ele, ao apoiar entusiasticamente a Revolução Mexicana – enquanto muitos anarquistas importantes radicados no Velho Continente, entre eles o próprio Malatesta, olhavam o fenômeno com parcimoniosa reserva – percebeu a sua importância para a alteração da estrutura fundiária no continente.

Foi mesmo a experiência brasileira um importante momento na consolidação do “internacionalismo” defendido por Neno Vasco já em Portugal. A sua parceria com os jornais e individualidades brasileiras, a relação que se manteve estreita com os grupos organizacionistas, e mesmo a articulação política que insistentemente buscou ativar não podem ser desvinculadas do cabedal adquirido na “década brasileira”. Principalmente por ter ele passado a defender, ainda por força dessa experiência, a construção de uma entidade internacional para os anarquistas de ambos os continentes. Estratégia que se encontrava, aliás, bastante incipiente por ocasião de seu desembarque no porto de Lisboa.

Em conformidade com tais premissas, Neno Vasco, ao chegar a Portugal, uniu-se ao grupo de A Sementeira que, como ele, via no sindicalismo um meio importante para a inserção social dos anarquistas. Na esteira do que vinha acontecendo no Brasil, ele viria a auxiliar na organização de congressos, conferências e articulações no âmbito da classe ou puramente ideológicas. Esteve ainda igualmente empenhado em eventos internacionais nos quais se encontravam portugueses e brasileiros, como o caso do Congresso da Paz, primeiro em Ferrol (Galícia) e depois no Rio de Janeiro, em 1915 e, ainda que como hipótese, na greve geral revolucionária de 18 de novembro de 1918, simultaneamente preparada no Brasil e em Portugal.

Por outro lado, a atuação de Neno Vasco até a sua morte, em setembro de 1920, não pode ser entendida como mero desdobramento do que havia assimilado no Brasil. Também as dificuldades e incertezas enfrentadas em Portugal tiveram grande importância para a sua formação.[9] Dessa forma, o papel fundamental que desempenhou no movimento anarquista foi o somatório do que havia acumulado, e a aplicação de uma metodologia de ossatura malatestiana, descoberta no Brasil e aperfeiçoada até o fim de sua vida.

Como se pretende demonstrar, a idéia que, em particular até os anos de 1980, prendia a imagem do anarquista a do conspirador estrangeiro, formado no exterior e que premeditava, sem efetivamente a conhecer, a transformação violenta da sociedade fica bastante prejudicada. Principalmente se levarmos em consideração que, entre outras variantes, esta tradição historiográfica reservava para o trabalhador nacional qualidades vizinhas à impotência e a incapacidade.[10]

Para a organização da narrativa, em uma explicação mais geral, dividimos o livro em três capítulos; além de outros dois, um de caráter introdutório e outro mais conclusivo.

O primeiro, introdutório, que recebeu o titilo de Intróito Biográfico, tem como objetivo anunciar o nascimento de Neno Vasco e circunstanciar o meio em que se encontrava a sua família, as relações sociais desta e a fase da história portuguesa na qual se inseriu o nascimento do biografado. Foi também neste “intróito” que aproveitamos para sublinhar a importância econômica que representou para a monarquia portuguesa a emigração de seus súditos, em particular os das províncias do norte. Este pequeno capítulo trata ainda de questões diretamente ligadas aos primeiros anos de vida de Neno Vasco.

O primeiro capítulo, que de fato recebe esse nome, está dividido em duas partes: a primeira diz respeito à tradição construída ao longo do século XIX, mesmo antes do nascimento de Neno Vasco, dos socialistas e republicanos em Portugal. Abordamos nessa fração as querelas de Coimbra, conhecidas como a “Questão Coimbrã”, os estatutos socialistas da “geração de 70”, e a importância que tiveram as figuras de Eça de Queiroz e Antero de Quental. Ainda nessa parte resgatamos o episódio da chegada da “Internacional” a Lisboa e os desdobramentos da propaganda da Comuna de Paris nos meios socialistas. Na segunda parte do capítulo, já com Neno Vasco de retorno a Portugal, depois de breve estada no Brasil, aludimos a sua formação secundária e seu posterior ingresso no curso de Direito da Universidade de Coimbra. Nesse momento, em que ele descobre o anarquismo, demos ênfase ao seu circulo de relações e a conjuntura antimonarquista e anticlerical que se desenhava em Portugal. Neno, nesta época, está sintonizado com o anarquismo de caráter intervencionista, corrente, aliás, muito importante no fim dos oitocentos. O fim do capítulo coincide com a partida de Neno Vasco para o Brasil, em 1901, já formado bacharel e entusiasmado pela possibilidade de atuar como anarquista em país republicano.

No segundo capítulo, além dos fatos que, em paralelo, sensibilizaram Neno Vasco, como a imigração e a precária urbanização brasileira, estabelecemos os parâmetros através dos quais ele se relaciona com os demais anarquistas em São Paulo. Foi nesse mesmo capítulo que narramos sua aproximação das idéias de Malatesta, e a atuação nos jornais O Amigo do Povo, A Terra Livre e na revista Aurora. Tais iniciativas, imbricadas com a organização do Primeiro Congresso Operário, dos grupos de afinidade e de uma intensa discussão sobre a organização dos anarquistas e trabalhadores, além é claro das teses que chegavam ao Brasil desde Amsterdã, no Congresso Anarquista de 1907, agregam-se a um sem número de atividades que agitam a militância, em particular, dos organizacionistas. É nesse contexto que Neno escreve suas duas peças de teatro, e trabalha freneticamente para consolidar as relações orgânicas entre os grupos do Rio de Janeiro e São Paulo.

O capítulo registra ainda o casamento de Neno com a espanhola Mercedes Moscoso, sua relação com o cunhado, o fecundo anarquista Manuel Moscoso, e do nascimento de seus filhos. Em relação à militância registra o texto as perseguições aos anarquistas com a lei de deportação de 1907, a fundação da Confederação Operária Brasileira e a circulação do jornal A Voz do Trabalhador. Tais iniciativas, somadas ao apoio a Revolução Mexicana, a partir de 1910, e aos contatos que vinha Neno estabelecendo por carta, com Elisée Reclus, Emma Goldman e Kropotkin, acrescidas ainda das traduções que sistematicamente publica dos textos de Malatesta, confirmam a sua importância para o movimento anarquista não apenas no Brasil.

Por fim, o texto termina com o retorno de Neno a Portugal, esperando, entre outras coisas, disputar na República portuguesa mais espaço para o anarquismo. Entretanto, a viagem não acontece sem que antes ficassem bem traçados os planos para a continuidade da articulação política.

O terceiro capítulo, o mais longo, por representar a maturidade não só de Neno, como das propostas por parte dos anarquistas, demandou um enorme esforço de cotejamento de fontes. Nessa parte fica bastante clara a relação que ele continua a estabelecer com os brasileiros, até mesmo na garantia de sua sobrevivência. No plano geral, as linhas de ação continuam as mesmas estabelecidas na “década brasileira”, entretanto as tarefas se avolumam diante de um movimento sindical cada vez mais tendente ao anarquismo. É nesse período que os libertários, em disputa com republicanos e socialistas, ganham a dianteira dos sindicatos mais aguerridos. Ainda é dessa época a mais viva discussão entre os “sindicalistas puros” e anarquistas dentro das associações de classe. Neno, como havia feito no Brasil, preocupa-se nitidamente com a questão e busca teorizar sobre ela. Os debates no campo do sindicalismo revolucionário intensificam-se até a Grande Guerra que, no plano da tática, divide os anarquistas entre aliadófilos e antibelicistas. A Revolução Russa, outro importante divisor de águas, acabaria por alavancar ações dos organizacionistas e, independente naquele momento de determinadas singularidades, foi importante para a posição que viriam a assumir os anarquistas na década seguinte. A morte de Neno, em 1920, privou-nos, entretanto, de um aprofundamento maior de sua critica ao centralismo bolchevista. Apesar das já comuns alusões aos métodos diferenciados, o que ficava patente, ao menos nos primeiros textos dos anarquistas, era para os anarquistas preferível dialogar com os “centralistas” a terem que dividir com o reformismo socialista o espaço político nos meios operários.

O texto de conclusão, que por sua proposta e dimensões reduzidas, recebeu o título de Post Scriptum de uma vida, relata a morte de Neno Vasco, poucos meses após o falecimento de sua companheira de toda uma vida Mercedes Moscoso. Ambos acabaram por perecer da mesma sufocante tuberculose. No corpo narrativo desta conclusão incluímos um balanço breve do legado de Neno, e as muitas opiniões que sobre ele emitiram os principais jornais operários de Portugal e Brasil. Foi possível também constatar que a sua morte, ironicamente, acontecia no momento em que os anarquistas, tanto no Brasil quanto em Portugal, caminhavam para a adesão majoritária ao organizacionismo, de resto a corrente tão apaixonadamente defendida por ele em suas pregações. Aproveitamos assim, para ainda incluir no texto, as impressões sobre algumas diferenças metodológicas de ambos os campos revolucionários, o do bolchevismo e do anarquismo, para o esclarecimento em favor de algumas observações feitas no capítulo terceiro.

Como é comum a um capítulo conclusivo, estão presentes no texto as relevâncias do trabalho empreendido, as considerações finais de ordem teórica e uma apreciação sobre a importância do personagem no contexto de sua época.

Dessa forma, acreditamos ter sido a biografia um revelador exercício de articulação entre a vida de um militante anarquista e as múltiplas circunstâncias atravessadas por este diante dos dilemas teóricos, posições táticas concretas e opções por metodologias a serem aplicadas em favor de determinados objetivos finais. Além do que, enfronhado em seu próprio tempo, não pôde Neno Vasco escapar às encruzilhadas, nem às vertigens de ter que optar sempre pelo caminho mais adequado, contando para isso, mesmo que de forma aparente, apenas com o foco de sua ideologia.

Alexandre Samis




Notas:

1. Publicada em livro: Alexandre Samis. Clevelândia. Anarquismo, Sindicalismo e Repressão Política no Brasil. São Paulo/Rio de Janeiro, Imaginário/Achiamé, 2002.

2. Da totalidade dos prisioneiros enviados para as margens do rio Oiapoque, no Amapá, 51% lá faleceram.

3. Gregório Nazianzeno Moreira de Queirós e Vasconcelos foi um dos mais ativos militantes anarquistas no Brasil e em Portugal. Veio a falecer em Portugal, seu país de origem, a 15 de setembro de 1920. In prefácio de João Freire: Neno Vasco. Concepção Anarquista do Sindicalismo. Porto: Afrontamento, 1984.

4. Prefácio de João Freire. op. cit., p.12.

5. Edilene T. Toledo. O Amigo do Povo: grupos de afinidade e a propaganda anarquista em São Paulo nos primeiros anos deste século. Dissertação de mestrado, IFCH/UNICAMP, 1993. p. 50.

6. Ibidem, p. 52.

7. Ver para o conceito de “esfera pública burguesa”: Jürgen Habermas. Mudança Estrutural da Esfera Pública - Investigações quanto a uma categoria da sociedade burguesa. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.

8. Prefácio de João Freire, op. cit., p.12.

9. Entretanto, os eixos através dos quais passava a perceber a militância, de fato, tinham sido concebidos entre 1901 e 1911.

10. Contribuíram, em alguma medida, para o mito da mão-de-obra estrangeira os trabalhos de Aziz Simão. Sindicato e Estado. São Paulo: Editora Ática, 1981; José Albertino Rodrigues. Sindicato e Desenvolvimento no Brasil. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1968; Leôncio Martins Rodrigues. Conflito Industrial e Sindicalismo no Brasil. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1966 e Leslie Sheldon Maram. Anarquistas, imigrantes e movimento operário no Brasil (1890-1920). Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1979.

author by Patrick - www.anarcopunk.org/mentespluraispublication date Wed Jul 01, 2009 00:59author address author phone Report this post to the editors

Gostaria apenas de dar um parabéns a este trabalho que penso ser muito importante para o resgate da história do anarquiso brasileiro e da vida de militantes que viveram suas vidas na luta pela transformação da sociedade e que nos deixaram um legado importantíssimo de idéias, práticas e debates, muitos que permanecem ainda hoje.
Um salve também a todos os anarquistas organizados no RJ, a suas lutas e esforços na construção do anarquismo social e na solidariedade conjunta com os movimentos sociais.
Abraços desde o sul.

 
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