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Temos de ir além do papel de espectadores do colapso da economia capitalista

category internacional | miscellaneous | opinião / análise author Sunday November 23, 2008 01:15author by Manuel Baptista* - Colectivo Luta Social (*a título pessoal)author email manuelbap at yahoo dot com Report this post to the editors

Em vez de se fazer debates e discursos, mais ou menos engenhosos sobre teorias e ideologias, temos de avançar para o terreno social concreto. Aliás, será dessa experiência de luta social, que as várias tradições do movimento anti-capitalista irão amadurecer as suas próprias bases teóricas

Se a crise nos atinge de chofre, temos o reflexo de apelar para os nossos salvadores. Os políticos (os que consideramos serem «bons») e os peritos económicos e financeiros… Mas, poderemos nós, em vez disso, nos auto «empossar»? Poderemos actuar por nós próprios, sem salvadores?

As acções colectivas são fundamentais, neste contexto. São estas acções e o correlativo desenvolvimento de ideias que as acompanham necessariamente, que constituem uma porta de saída. Não há nenhum fatalismo desta crise ser «a última», a «derradeira» crise. Há - sim - um perigo real desta crise originar uma nova forma de autoritarismo. Foi a crise de 29 e seus desenvolvimentos, não esqueçamos, que propulsionou os regimes totalitários, que por sua vez, estiveram na origem da IIª Guerra Mundial.

Uma atitude possível é nos descolarmos da visionamento hipnotizado da crise, tal como ela é apresentada e encenada a toda a hora pela média corporativa, como se fosse uma espécie «de apocalipse», e erguermo-nos para respondermos a ela, no sentido de realizarmos aquilo por que ansiamos.
Temos de ultrapassar múltiplos obstáculos, um dos quais é o fetichismo, ou alienação da nossa visão sobre as relações sociais numa sociedade capitalista.
Já Marx constatara, em seu tempo, que numa sociedade onde prevalece o modo de produção capitalista, tudo aquilo que resulta da criatividade humana acaba por ser transformado em mercadorias. Faz parte da natureza destas mercadorias que a parte de trabalho humano, de criatividade que está nelas encerrada seja vista como radicalmente alheia, estranha a nós próprios.
Então, num capitalismo globalizado, tudo se transformou em mercadorias e tudo se apresenta exterior a nós, que as criámos. Ao ponto de nós termos a impressão de os produtos da actividade humana serem ‘activos’ e sermos nós os seus objectos. O cúmulo desta situação ocorre com o dinheiro. Uma invenção que - hoje em dia - parece ter vida própria, parece estar a desestabilizar o próprio âmago do sistema que o transformou no fim supremo, e que, além disso, é completamente incontrolável. Uma força sobrenatural que conduz as sociedades para o abismo.

Evidentemente, isto - até certo ponto - é verdadeiro, na medida em que praticamente todos os actores aceitam prestar vassalagem, adorar, de uma ou outra forma, esse «deus», até mesmo exprimindo um sentimento de amor-ódio.
Isto passa-se sempre assim, excepto quando as pessoas se rebelam contra esta situação. É algo que está sempre a acontecer, com efeito: em todas as épocas do capitalismo houve sempre pessoas que assumiram uma postura de recusa deste sistema, onde reina o fetiche do dinheiro, do homem escravo do capital, do trabalho transformado em mercadoria.

Porém, na ausência de verdadeira alternativa a este capitalismo, o que pode sair desta crise é um reforço do autoritarismo, sob todas as formas imagináveis, fenómeno que já se pode ver em muitas situações, desde as zonas periféricas do sistema, até ao modo de funcionamento das relações sociais no próprio coração «da besta».
Basta referir a enorme soma de sofrimento humano nos países periféricos, que se vem acentuando nas últimas décadas, mesmo nos momentos em que não existe qualquer crise no sistema financeiro mundial.
Quanto à mudança das relações no seio das sociedades ditas «civilizadas», basta observar a deriva autoritária, «securitária», o aprofundar do fosso entre os «have» e os «have not», a guerra feita aos pobres, o abandono de qualquer veleidade de procura de governação pelo «consenso social» (ou seja, o abandono pela classe capitalista que sustenta os governos, da opção social-democrata ou reformista, dito de outro modo).

Através do colete-de-forças do endividamento das pessoas e das famílias para obterem um estatuto de conforto e de acesso a bens considerados básicos, por um lado e, por outro, com a precariedade do vínculo laboral, tornando incerta a possibilidade de satisfazer as múltiplas exigências a que as pessoas ficaram ligadas, o capitalismo, com toda a ajuda dos governos, tem a possibilidade de subjugar a classe trabalhadora, de forma esmagadora, mesmo nos países onde esta adquiriu uma grande experiência de luta colectiva, mesmo nos que possuem um nível de instrução muito elevado, onde potencialmente, haveria maior capacidade de surgir uma resposta criativa, uma resposta de contra-ataque.
Com efeito, podemos ver em todo o lado que, nestes segmentos da classe trabalhadora, estão criadas condições que potenciam os conflitos inter-pessoas, onde as diferenças são habilmente exploradas para manter a classe trabalhadora submissa e para melhor realizar a extorção da mais-valia, com a máxima rentabilidade possível para o capital
A percepção descontextualizada, desfocada, de todos os movimentos de contestação, de resistência, sejam quais forem as suas expressões, aumenta a desorientação dos indivíduos, infunde-lhes a falsa ideia que apenas a resignação é sensata.
Outra causa de auto-ilusão e de rápida desilusão, ingredientes essenciais para sujeitar milhões de trabalhadores, advém da ideologia reformista, de que o capitalismo precisa de ser «moralizado», precisa de ser transformado numa «coisa decente».
Insiste-se numa falsa equação: 'Capitalismo = mercado'
Nada mais falso! O capitalismo é um sistema baseado na exploração e na mercantilização da criatividade humana, assim como a ordem social necessária ao seu funcionamento, incluindo todos os aspectos do Estado contemporâneo! Assim, tanto a vertente «keynesiana», como «neo-liberal» são duas formas, apenas, de pôr o sistema a funcionar.

Outra falsidade que pode atravessar o espírito das pessoas é de que um decréscimo da actividade decorrente da crise, vai ser boa para o ambiente, na medida em que vai poupar os recursos, matérias-primas, travar a desflorestação, diminuir a emissão de gases de efeito de estufa, etc.
É ingénua esta crença, pois o que se tem verificado sistematicamente é um rápido abandono de quaisquer preocupações com a saúde das pessoas e com a preservação do ambiente, a pretexto de «salvaguardar o emprego», no mundo «rico». A crise é um bom pretexto dos capitalistas se verem livres de regulamentos que limitavam as suas condições de acumulação de lucro. Nos países pobres, a exploração de uma mão-de-obra miserável intensifica-se, há maiores condições para uso de tecnologias muito poluentes, de intensificação da pilhagem dos recursos e há também um aumento da forma absoluta de violência (e de catástrofe ecológica) que são as guerras. Isto não são previsões; é o resumo do que se tem passado nos últimos tempos, no mundo.
As pessoas de esquerda - por vezes - esquecem que o capitalismo não é simplesmente um sistema que promove o consumo, que permite a venda em larga escala de muitas coisas. Em tempo de retracção de mercados, a manutenção da taxa de lucro efectua-se simultaneamente por uma compressão dos salários e por uma economia nos gastos de produção o que desencadeia uma aceleração da poluição, por desprezo pelas normas ambientais.

Apenas temos de ver um pouco mais além de nós próprios para constatar que, neste mundo, muitos sítios são simplesmente um pesadelo para se viver, ou onde se consegue sobreviver, apenas.
Não são as condições de miséria, nem é sequer a consciência dessa miséria que vão abolir o capitalismo: Será a esperança colectiva em algo melhor.
O desafio é portanto de criarmos a condição para termos esperança em nós próprios, nas nossas forças, pois é na transformação de nossas relações uns com os outros que reside a possibilidade de transformar o sistema em profundidade.
Não é a ideologia, não são doutrinas, por mais belas e interessantes, que vão mudar este estado de espírito, que vão transformar as pessoas de seres passivos e sofredores em seres activos e lutadores.
Creio que somente se consegue isto com a luta solidária e a cooperação entre pessoas que se conhecem, que partilham locais de trabalho, de habitação, de estudo, de convívio, etc. É preciso que nesses locais que se exprimam as mil e uma formas de criatividade humana, contra o capitalismo.
A acção organizada e colectiva torna-se o factor decisivo. Em vez de se fazer debates e discursos, mais ou menos engenhosos sobre teorias e ideologias, temos de avançar para o terreno social concreto. Aliás, será dessa experiência de luta social, que as várias tradições do movimento anti-capitalista irão amadurecer as suas próprias bases teóricas.

«Não há movimento revolucionário, sem teoria revolucionária», como dizia Vladimir Illich Ulianov. Sem dúvida que não, digo eu, embora reste saber qual ou quais teoria(s)? Porém, isto também quer dizer que é válida a formulação reversa: «não existe teoria revolucionária que não se alimente duma prática revolucionária».

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