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A Política de alianças

category international | anarchist movement | opinion/analysis author Saturday November 01, 2008 00:55author by José Antonio Gutiérrez Danton Report this post to the editors

Problemas em torno da construção de um pólo libertário de luta

Como já temos dito anteriormente, toda essa questão se vincula ao problema do programa, pois para poder estabelecer alianças nas quais sejamos um ator em direito próprio, devemos ser um ator fortalecido, com visão, com propostas, com uma tática e uma estratégia clara.

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Sobre a Política de Alianças: problemas em torno da construção de um pólo libertário de luta



Este artigo surge da necessidade de retomar certas discussões que ficaram esquecidas a fins dos anos 90 no nosso intuito de construir uma alternativa anarquista-comunista. Creio que neste processo deixamos muitas discussões incompletas, deixamos muitos argumentos não delineados, o que hoje significa que provavelmente muitas das questões que acreditamos ser superadas e absolutamente claras, talvez não estejam tanto. Creio ser necessário, no entanto, retomar algumas destas discussões que, por mais básicas que possam parecer, não são menos importantes. De fato, este mesmo artigo encontrou seu esqueleto original como resposta -a um de nossos "próximos"- em um debate a respeito da atitude que os libertários devem tomar ante a esquerda "autoritária".

Retomamos estas discussões não com os mesmos argumentos que provavelmente utilizaríamos a uma década atrás, ainda que o espírito siga sendo o mesmo. Nestes dez anos temos tido alguns avanços, talvez não tenham sido tantos como gostaríamos, mas aí estão. Armados com nossos acertos e, sobretudo, com nossos equívocos e erros nas costas, é que retomamos esta discussão. Contudo, temos ganho aprendizado e experiências.

Creio que o assunto das alianças em raras vezes recebem a devida atenção por parte dos meios libertários. Com muitos outros aspectos ainda insuficientes em nosso movimento, as alianças são algo que ocorrem ou não ocorrem, deixando em raras vezes o registro do por quê se tomou certas decisões e não outras. Sucede, então, que as gerações militantes mais novas se vêem forçadas a se deixar guiar por suas próprias intuições quando se trata deste aspecto. Isso se passou conosco, e no geral estas experiências, as quais foram boas e ruins, podemos tirar algumas conclusões.

Por isso considerei necessário escrever um pequeno documento sobre este tema. Porém no decorrer da escrita, me dei conta que era impossível tratar a questão das alianças sem ao menos tratar três outros assuntos que interagem intimamente com ele: o problema do fortalecimento interno do movimento e seu programa revolucionário; o problema da hegemonia política no movimento popular em seu sentido mais amplo; e o problema da crítica e da auto-crítica. Entende-se, portanto, este breve documento como um aporte a respeito das questões táticas e estratégicas do movimento, com ênfase no problema das alianças.

I

Um dos aspectos mais débeis do anarquismo, em geral, é quando se trata da questão das alianças políticas. Eu me inclino em acreditar que uma correta política de alianças requer, primordialmente, uma visão programática sólida por parte do movimento anarquista. Um programa revolucionário não é somente uma acertada e incisiva crítica ao capitalismo e ao Estado; é, além disso, o como essa crítica se aplica a uma situação histórica concreta e como esta se traduz em um conjunto construtivo de propostas para superar as contradições existentes que infestam uma determinada sociedade.

A carência de tal programa e análise deixa o anarquismo como um ator débil ante o curso dos eventos (como uma boa idéia mas impossível de ser aplicada), uma vez que nos impede em convertermo-nos em alternativa para conquistar o coração do povo em luta. Esta inviabilidade para nos converter em alternativa em direito próprio, refletida na ausência do programa revolucionário, significa que terminamos definindo nossa política em função de "terceiros" -freqüentemente, os partidos mais numerosos da esquerda- seja por proximidade ou rechaço [1]. E esta debilidade é o que se encontra subjacente a nossa inapta política de alianças que, com freqüência, consiste em duas posturas maniqueístas: ou rechaçamos trabalhar toda possibilidade de trabalho com outros grupos da esquerda ou nos convertemos em seus incondicionáveis seguidores.

Sabemos que os anarquistas não farão a revolução sozinhos. E sabemos também que nossa teoria política nos distingue do resto do movimento revolucionário: não podemos esperar que outras correntes de esquerda, que com toda segurança estarão nas lutas e nos processos de mudanças, pensem e atuem como anarquistas; afirmar tal coisa sobre a organização dos anarquistas e sobre a definição do anarquismo seria redundante. Como já disse anteriormente [2], o rol dos anarquistas no movimento revolucionário é insubstituível e se não impulsionarmos nosso programa, ninguém mais o fará -ainda que haja em determinadas ocasiões setores do movimento popular que se aproximem espontaneamente de nossas posições, ou que desenvolvam linhas políticas similares, o anarquismo tem uma responsabilidade enquanto portador específico de uma série de experiências, conteúdos e reflexões que se devem traduzir em um programa de ação concreto.

II

Freqüentemente, os anarquistas, permanecerão em meio de um movimento popular, revolucionário ou de luta, que em sua grande maioria não almeja a destruição do Estado e que, ao contrário, almejará sua conquista. Freqüentemente nos vemos em meio a uma classe trabalhadora que muitas vezes não aspira mais que a mudança de governo como última solução à sua situação. Podemos, então, adotar duas posturas frente a esta questão: a primeira, é assumir uma posição elitista e rechaçar todo contato com estes trabalhadores e com estes setores do movimento popular para não manchar nosso imaculado movimento. Isto, na realidade, não é uma posição política senão de caráter quase religioso, que no lugar de favorecer a ação, no melhor dos casos, a paralisa em favor do resguardo da fé. E, no pior dos casos, se transforma em um nocivo sectarismo.

O sectarismo é a incapacidade de tolerar posições teóricas ou práticas diferentes de suas próprias. O sectarismo se caracteriza pela ignorância tanto das idéias alheias como de suas próprias[3] assim como pela nula intenção em se transformar a realidade. O sectarismo se caracteriza pelo "estrabismo político", é dizer, por sua incapacidade de reconhecer o inimigo político ou de classe. O sectarismo também se caracteriza pela "miopia política" que o impede de distinguir as diferenças que são essenciais das que não são. Nos casos patológicos mais extremos o sectarismo se alimenta de um complexo de inferioridade, na obsessão e na fixação com o que os demais fazem ou dizem[4], em uma complexada arrogância e vaidade, e em uma atitude de plena amargura frente a existência.

O sectário é incapaz de reconhecer os méritos alheios e carece de inteligência ou de critério para discernir em uma discussão em que esta de acordo ou diverge: sua atitude é de aceitação ou rechaço absoluto. O sectário carece de honestidade e sentido crítico para debater, e se limita a denunciar e a cair em diálogos de surdos. No geral, a visão de mundo do sectário é tão rígida, tão inflexível, tão fanática, tão amarga, tão indesejável e pouco atrativa que mais se destina em espantar o povo do que atrai-lo à causa revolucionária. Em certos círculos anarquistas, estupidamente, se exalta o sectarismo como virtude e inclusive quase se há convertido em um "princípio fundamental" do anarquismo. Mas o sectarismo é de espírito autoritário e nada tem de libertário.

A respeito do sectarismo em relação a outros movimentos nos diz Luigi Fabri:

"Aqueles partidos, que aspiram chegar ao poder, quando o conseguem sem sombra de dúvidas serão inimigos dos anarquistas, mas como isto esta um tanto longe , assim como sua intenção pode ser boa e muitos males dos que pretendem eliminar também o queremos ver suprimidos, e como temos muitos inimigos em comum e em comum tenhamos de livrar talvez mais de uma batalha, é inútil, quando não prejudicial, trata-los violentamente, dado que por agora o que nos divide é uma diferença de opinião, e tratar violentamente a alguém porque não pensa ou trabalha como nós é uma prepotência, é um ato anti-social (...) Certamente que muitas de suas doutrinas são errôneas, mas para demonstrar seus equívocos não são necessários os insultos; alguns de seus métodos são nocivos à causa revolucionária, mas trabalhando diferenciadamente e propagando com o exemplo e a demonstração adequada os demonstraremos que nossos métodos são melhores"[5]

O sectarismo é daninho e prejudicial. Exemplos históricos nos são abundantes: no Chile, depois do golpe de Pinochet, a primeira reação do PC foi jogar a culpa do golpe nos "ultra-esquerdistas" (o MIR) a quem chegou a definir como "cavalos de Tróia do imperialismo": certos maoístas apoiaram o golpe a Chaves em 2002 e hoje festejam entusiasmados as mobilizações direitistas em Sucre e em toda a Bolívia, chegando a defini-las como de massas e de esquerda; no Chile, vergonhosamente, um par de anarquistas, muito minoritários, aplaudiram o golpe de Pinochet que derrotou o "regime marxista", enquanto seus companheiros mais conseqüentes eram perseguidos ou participavam da débil resistência; outros anarquistas na Argentina apoiaram o golpe militar que derrubou Perón; e mais recentemente, recordamos o 1. de Maio de 2003 no Chile em que anarquistas e comunistas terminaram se confrontando em um vergonhoso incidente, enquanto a polícia, em meio a um rio revolto fazia ganho dos pescadores. O movimento anarquista alemão, dividido entre as correntes de Joseph Peukert e Jonhan Most durante o século XIX, viveu um dos episódios mais tristes da história de seu sectarismo quando Peukert delatou a Joham Neve, militante do grupo de Most, à polícia, morrendo mais tarde nos cárceres prussianos[6]. O sectarismo está repleto de histórias de delação em meio a sua cegueira fanática. É necessário recordar essa história de injúrias para se ter sempre presente aonde leva o sectarismo.

A segunda posição é assumir as diferenças e, pese no que pese, decidir-se trabalhar com esses setores para o cambio social. E quem assume essa segunda posição deve, necessariamente, suscitar o problema do que é uma política de alianças correta. Pois não podemos tão pouco convertermos em aliados incondicionais de uma esquerda que se distancia muito de pensar como nós, nem nos convertermo-nos nos fiéis seguidores das "massas". Devemos ser capazes de confluir aonde se deva com o conjunto do movimento revolucionário, mas enquanto anarquistas. Sempre como anarquistas, sempre agitando nosso programa e nossas bandeiras, sempre conservando o direito a uma crítica madura e construtiva ante o desacordo. E também sempre mantendo em mente que, enquanto anarquistas, representamos a um setor específico do povo, tanto como outros setores políticos também representam a um setor e a tendências no seio do povo. Sustentar que os anarquistas são o único setor legitimamente representante do povo, é sinônimo de elitismo e é opinião que não deixa nada a desejar a teoria leninista de partido[7].

III

O outro problema, nesse caso, que se liga ao problema das alianças, é como nos logramos gerar uma certa hegemonia libertária no movimento popular; como logramos que nosso pólo anti-autoritário pese mais e determine majoritariamente o desenrolar dos eventos em relação ao pólo autoritário. Pois devemos recordar que o povo não é "libertário" por natureza, e tão pouco o é "autoritário". Ambas tendências existem igualmente no seio da classe trabalhadora, e tem encontrado sua expressão política mais ou menos inclinada à esquerda jacobina e à esquerda libertária. Trabalhar o tema das alianças, portanto, sem prestar suficiente atenção ao problema da hegemonia no seio do povo, é como haver realizado um trabalho incompleto, é estar se iniciando uma tarefa sem saber como concluí-la.

IV

Como já temos dito anteriormente, toda essa questão se vincula ao problema do programa, pois para poder estabelecer alianças nas quais sejamos um ator em direito próprio, devemos ser um ator fortalecido, com visão, com propostas, com uma tática e uma estratégia clara. Devemos articular bem nosso pensamento, com os problemas atuais e com a saída que queremos. Isso é a alma do programa revolucionário. A sua vez, se queremos ser um fator de peso no movimento popular, que vá além do espectro de nossas alianças, também devemos aparecer bem armados de análises, de propostas e de um método e um estilo de trabalho social correto. Para tudo isso, também, se necessita de um programa e não somente vagas consignas e teoria abstrata.

É então, a questão do programa a que devemos resolver, ao menos em terminações amplas e gerais, antes de pensar nas alianças. Pois para saber com quem e como unirmos, transitória ou permanentemente, devemos saber para que queremos fazê-lo, e isso só é possível se sabe com toda certeza o que é que concretamente se quer -este último também depende da influência que logramos alcançar no movimento de massas: de nossa clareza política e do quanto acertada seja nossa política.

V

As debilidades internas do anarquismo são o principal "calcanhar de Aquiles" que deveríamos buscar superar se queremos ser um ator de peso nas lutas sociais e impulsionar um programa político que possa aglutinar setores importantes do povo e dar golpes de alguma importância ao sistema dominante. Requeremos menos auto-complacência e mais auto-crítica. Isso será expressado, eloqüentemente, pelos companheiros do Dielo Truda, de ex-veteranos da insurgência makhnovista na Ucrânia, que analisando o fracasso do anarquismo na revolução Russa e o surgimento da ditadura leninista analisaram que:

"Temos adquirido o hábito de culpar o fracasso do movimento anarquista na Rússia entre 1917-1919, à repressão estatal do Partido Bolchevique. Isso é um grave erro. A repressão Bolchevique dificultou a expansão do movimento anarquista durante a revolução, mas foi um dos obstáculos. Principalmente, foi a ineficiência interna do próprio movimento anarquista uma das principais causas deste fracasso, uma ineficiência emanada pela imprecisão e indecisão que caracterizaram suas principais posições políticas a respeito de organização e táticas (Esperamos demonstrar e desenvolver esta opinião em um estudo separado, reunindo dados e documentos de prova).

O anarquismo carecia de uma opinião firme, enérgica e oportuna ante os principais problemas que enfrentava a Revolução Social , opiniões que eram necessárias para satisfazer as massas que faziam a Revolução. Os anarquistas chamavam à tomar as fábricas, mas não possuíam uma noção homogênea e bem definida sobre a nova produção e sua estrutura. Os anarquistas concordavam com a consigna comunista: ´A cada qual segundo suas capacidades, a cada qual segundo suas necessidades´, mas nunca se deram ao trabalho de aplicar este conceito à vida real. Assim como permitiram que elementos suspeitos transformassem este grande princípio em uma caricatura do anarquismo (Devemos recordar como muitos vigaristas se agarraram a este princípio como um meio de obter bens coletivos, durante a revolução em proveito próprio). Os anarquistas falavam muito da atividade revolucionária dos mesmos trabalhadores, mas foram incapazes de dirigir as massas, ainda que não foram rudimentariamente, através das formas que tal atividade deveria assumir: se demonstraram incapazes de regular as relações recíprocas entre as massas e seu centro ideológico. Incitavam as massas a se livrar do jogo da autoridade: mas não indicavam como os ganhos da Revolução se haviam de consolidar e defender. Careciam de opiniões claramente definidas e de políticas de ação específicas com respeito a muitos outros problemas. O que os alienou das atividades das massas e os condenou à impotência social e histórica.

Nisso devemos ver a principal causa de seu fracasso na Revolução Russa. Nós, anarquistas russos que vivemos a prova de fogo revolucionária entre 1905 e 1917, não temos a menor dúvida a respeito disto. O obvio da ineficiência interna do anarquismo nos há compelido a buscar fórmulas para alcançar o triunfo. Em vinte anos de experiência, de atividade revolucionária, vinte anos de esforços nas fileiras do anarquismo e de seus esforços que não conseguirão nada se não fracassos do anarquismo enquanto movimento organizador: tudo isto nos tem convencido da necessidade de um novo partido-organização anarquista que cubra amplos setores, arraigado em uma teoria, uma política e uma tática comum.
"[8]

Mas essa opinião não era somente compartilhada pelos redatores da "Plataforma", o grupo Dielo Truda. Os anarco-sindicalistas russos não se expressavam em termos diferentes:

"Nos, anarquistas e sindicalistas -de feito, todos aqueles que crêem que a libertação dos trabalhadores é obra dos próprios trabalhadores- estávamos demasiado pobremente organizados e éramos demasiado débeis para manter a revolucão em um curso direto rumo ao socialismo. Não é necessário dizer que o socialismo não cairá do céu, e que uma única concepção de socialismo não é suficiente.

(...)Havia uma necessidade urgente de organização sistemática e de coordenação de atividades. A Revolução as buscou, mas demasiado poucos elementos estavam conscientes da necessidade e da possibilidade da organização federalista. E a Revolução, não encontrando-a, se lançou aos braços do velho tirano, do poder centralizado, que agora sufoca seu respiro vital. Nós estávamos demasiado desorganizados, éramos demasiado débeis, e por isso, permitimos que isto tenha ocorrido.
"[9]

Este artigo é escrito por M. Sergven no periódico anarco-sindicalista russo Vol´nyi Golos Truda de Setembro de 1918. Este, segundo o historiador Paul Avrich, não seria nem mais nem menos que um pseudônimo de Grigori P. Maximov, alguém que estava certamente muito distante das teses dos Plataformistas. É muito significativo que tanto os plataformistas como Maximov desde o anarco-sindicalismo, haviam compartilhado uma análise similar acerca das causas da debilidade do anarquismo russo, assim como de sua derrota, independentemente que haviam optado por soluções distintas para essa debilidade. Essa auto-crítica está muito distante da auto-complacência que nas décadas posteriores se transformara em norma em nossos círculos libertários[10].

VI

Ainda que temos nos acostumados a culpar nossas derrotas aos autoritários, aos burocratas, aos reformistas e assim lavamos nossas mãos das responsabilidades que a nós mesmos nos caem por não haver sido capaz de imprimir uma orientação diferente aos movimentos. Devemos, antes de ser críticos, ser auto-críticos. Pois se não somos capazes de reconhecer a parte de responsabilidade que cabe primeiramente a nós mesmos, significa que não seremos capazes de aprender as lições que nos dizem respeito para poder avançar. Mas também significa que assumimos nossa impotência e nossa irrelevância para as lutas populares. Pois, se a culpa sempre é dos outros, estamos assumindo que nossa presença, enquanto anarquistas, não faz nenhuma diferença, que não tem nenhum efeito. A auto-crítica, então, deve sempre preceder a crítica na hora de avaliar os fracassos e derrotas. E a auto-complacência, então, devemos ir arremeçando-a pela janela: sempre há algo que podíamos (ou podemos) fazer melhor. Negar isso não tem nada de revolucionário, mas muito de conservador e reacionário.

O fato de que tenha sido a esquerda autoritária a qual, no geral, tenha estado melhor organizada que a libertária e que tenha contado com um programa político claro, com uma melhor compreensão dos problemas imediatos das massas oprimidas, significa que eles tenham se convertido na força hegemônica da maioria das experiências revolucionárias (com as notáveis exceções da Ucrânia e da Espanha -e em último caso, souberam impor-se política e não militarmente). Mas tal feito não fora um fato inevitável nem fatal.

VII

Isto deduz que, se queremos nos assegurar que os movimentos revolucionários provenientes da ala libertária do povo pesem mais que a ala autoritária, devemos começar por clarificar nosso próprio programa primeiro, nossas propostas construtivas e nossa estrutura organizativa. Questões para as quais não existem receitas mágicas, ainda que podemos nos inspirar e buscar guias nas experiências e reflexões do passado. Mas nestas experiências ou reflexões não está, nem de perto, a resposta às necessidades que a própria história em movimento nos vai apontando.

VIII

Voltemos então ao problema das alianças. Temos de ser muito claros de que não existem respostas fáceis para questões como esta. Cada situação é única e deve ser analisada e estudada como tal pelos companheiros que as vivenciam. É impossível ter uma fórmula universal e atemporal sobre as alianças, que se aplique de maneira idêntica em qualquer local e momento. A política não se escreve nem com um papel calco nas mãos, nem com um molde na cabeça. Mas repetindo, acreditamos ser possível encontrar certos apontamentos gerais que é possível adaptar e que podem ser de utilidade a outros companheiros no momento de ponderar a questão das alianças em seu respectivo trabalho de base, ou em sua luta particular.

Em nossa experiência particular de uma década de trabalho, lutas e reflexão em torno destas questões, no Chile pós-ditadura, pudemos extrair conclusões sobre a questão das alianças que pode ser de utilidade para companheiros em outras latitudes ou momentos. Insistimos: estas são somente algumas conclusões, algumas reflexões fundamentais que podem ser de utilidade para o movimento geral. Não acreditamos que estes apontamentos, em geral, possam nem devam ser convertidos nas "tábuas de Moiseis". No entanto, queremos compartilhá-las com o animo de trocar experiências com o restante do movimento, um hábito que, provavelmente, deveríamos praticar com maior freqüência para aprendermos uns com os outros. Assim, com o intercâmbio e o dialogo de suas experiências (no lugar de simplesmente vivenciá-las) e que avance das "intuições compartilhadas" às "reflexões compartilhadas".

O desenvolvimento de uma correta política de alianças depende, na nossa opinião e baseados em nossa experiência, de uma série de fatores, a saber que:

1_ Que o primeiro passo para uma política de alianças correta é o fortalecimento do anarquismo; sem um programa revolucionário, não há possibilidade de nos convertermos em um ator forte em meio a nenhum movimento popular. Somente um programa próprio nos converte em alternativas, retirando-nos do eterno ciclo de condenar ou festejar a terceiros.

2_ Que a unidade com outros setores do movimento popular, se bem que necessária e de primordial importância, em virtude de que não derrotaremos sozinhos o capitalismo, não deve ser buscada a qualquer custo, somente entraremos em discussões com outras forças políticas na medida em que isso seja relevante para avançar nosso próprio programa e nossas próprias iniciativas. Programa e inicativas que, longe de serem hermenêuticas, se retro-alimentam, a sua vez, constantemente de nossa experiência e do intercâmbio com outros atores do mundo popular. Por conseguinte, as alianças se convertem na conclusão de nosso próprio desenvolvimento político e não em seu ponto de partida.

3_ Que a unidade de ação e a coordenação de inicativas não signifiquem postergar ou submeter a nosso próprio programa revolucionário.

4_ Que a necessária unidade dos setores revolucionários não significam um "matrimonio", mas que tenha sentido em função de objetivos precisos, os quais podem ser de curto, médio ou longo prazo. A unidade com outros setores revolucionários deve ser entendida, antes de tudo, como uma unidade de ação, ainda que não descartemos compartilhar certas análises ou discussões quando seja pertinente.

5_ Que tal unidade dos setores revolucionários, imprescindível para avançar posições contra o bloco dominante, há de acontecer "desde baixo e em movimento". Desde baixo, pois somente coordenaremos espaços concretos aonde efetivamente, nossos respectivos militantes confluam (organizações sindicais por exemplo) e, sempre quando, compartilharmos certos objetivos mínimos. E na ação, pois acreditamos que é a prática concreta a qual serve para clarificar objetivos e posições corretas, em vez do debate político abstrato; ademais, como já havíamos dito, não nos interessam os matrimônios, senão que buscamos a unidade pelas necessidades concretas da luta e para a obtenção de certas vitórias para o campo popular.

6_ Que ainda que no marco das alianças sejamos capazes, em todo momento, de buscar ampliar nosso marco de influência, de lograr influenciar a política e os programas de outros setores o quanto nos seja possível, buscando converter o movimento libertário em um pólo hegemônico do movimento popular. Isto é sumamente importante, pois devemos compreender que ainda quando cheguemos a ser uma força política de peso, com bons argumentos e capacidade de mobilização, nunca estaremos sós e sempre haverá outras forças lutando por impulsionar idéias diferentes e até opostas às nossas (para nós, enquanto libertários, a supressão de outras correntes políticas não é sequer uma opção a se ter em consideração). O que não significa a renúncia a advogar por um movimento popular e por um projeto social desde baixo, com democracia de base, o mais libertário possível, que seja capaz de abolir o Estado de forma revolucionária.

IX

Antes de tudo, os anarquistas não podem perder de vista o panorama geral. Devemos estar claros de que, qualquer política de alianças deva buscar, antes de tudo, o fortalecimento e o crescimento de uma alternativa revolucionária. Nem o isolamento nem as más companhias nos servem. Uma aliança que nos cria mais problemas que outra coisa não tem nenhuma razão de ser, ainda que nossos aliados se apresentem como "revolucionários" ou "anarquistas" ou o que quer que seja.

E devemos também estar claros de que tal política de alianças deve ser refletida a cada instante, para assegurar que seja coerente com nossas posições e que assim seja proveitosa. Estas coisas não podem ser jogadas ao azar, pois se bem que podemos estar improvisando, podemos estar certos de que o restante da esquerda, e muito menos a burguesia o estará.

X

Estas são algumas idéias básicas e alguns apontamentos muito gerais sobre a política de alianças. Não temos maiores pretensões em torno delas, salvo que sejam de utilidade para outros companheiros. E de nenhuma maneira representam alguma classe de substituição para o processo original de reflexão que toca cada organização em cada situação específica. Cada contexto é irreptível e único.

Mas, ainda antes que a singularidade de cada contexto, afortunadamente, nos leve a fazer o rol dos marinheiros sem bússola; a história e a teoria nos fornecem apoio e orientação. Sem embargo, não devemos esquecer que em nossas mãos está a direção e que de nossa parte depende não ir a deriva. Antes de tudo, somos nós os últimos responsáveis pelas nossas ações.

José Antonio Gutiérrez Danton
11 de Dezembro de 2007


Publicado em: http://www.anarkismo.net/article/7181
Tradução: Daniel Cabelo


Notas:

[1] Isto é o que havíamos chamado de "política de satélite", aonde os grupos anarquistas aparecem como satélites orbitando ao redor de outros partidos ou movimentos políticos.

[2]Ver "América Latina, problemas y posibilidades para el anarquismo" http://www.anarkismo.net/newswire.php?story_id=6230

[3] O que é igual, pela falta de inteligência para compreende-las

[4] Quando não na fixação obsessiva com pessoas destacadas de outros movimentos ou partidos.

[5] Luigi Fabbri, "Influencias burguesas en el anarquismo", Ed. Solidaridad Obrera, París, 1959, pp.56-57

[6] Não há que surpeenderse, portanto, que quando Emma Goldman se une ao grupo de Peukert nos EUA, a propósito do caso de Neve, Most não volta a dirigir-lhe a palavra.

[7] Ainda há muitos anarquistas iluminados que quando a classe trabalhadora faz algo que não se alinha a sua própria visão ou quando apóiam a tal ou qual partido da esquerda, sustentam que não passam de marionetes, que estão manipulados, que são ignorantes. Ou quando o povo realiza qualquer luta que não tenha por objetivo "a revolução social universal", então são uns burros, uns resignados. Em seu elitismo acreditam que somente o anarquismo (em sua versão mais purista e dogmática) é realmente representativo dos trabalhadores. Esta visão demonstra a incapacitada de compreender os fatores de grande relevância para qualquer política revolucionária correta: primeiro, que a classe trabalhadora, que o povo é sumamente complexo e é um emaranhado de diversas visões e interesses que nem sempre se harmonizam com uma linha "ideológica" pura. Segundo, que a criatividade das massas, aquele fator tão caro à uma política revolucionária e libertária, se manifesta ainda quando os trabalhadores expressam idéias que não comungamos. Devemos tratar de entender em que medidas essas idéias e ações ou bem um acomodo ou bem uma resposta a sua condição. E mesmo que estejamos em desacordo, devemos tratar de compreender que rol ativo cumprem as massas nos processos sociais, em vez de tratar de crer, equivocadamente, que somente estão na posição correta os que atuam única e exclusivamente quando se esta de acordo conosco.

[8] "Respuesta a los Confusionistas del Anarquismo", Grupo Dielo Truda, Agosto de 1927. Artículo reproducido en "Facing the Enemy", Alexander Skirda, Ed. AK Press, 2002, pp.224-225.

[9] "Los Caminos de la Revolución", M. Sergven, Vol'nyi Golos Truda, Moscú, 16 de septiembre de 1918. Artículo reproducido en "The anarchists in the Russian Revolution", editado por Paul Avrich, Ed. Thames & Hudson, Londres, 1973, pp.124-125.

[10] Hoje em dia encontramos, freqüentemente, anarquistas que enchem a boca falando sem parar do fracasso da esquerda latino-americana, do marxismo, etc... Qualquer que escutasse isso pensaria, ingenuinamente, que a história do anarquismo é, pelo contrário, a história de uma série incrível de vitórias que fazem tremer os governantes e capitalistas de todo o mundo. Mas até o anarquista mais alucinado se envergonharia de dizer tal absurdo. A insistência no fracasso dos "outros" sem analisar primeiro nosso próprio fracasso, é como ver o cisco no olho alheio e não nos ajuda, em absoluto a sair dos círculos marginais que se há confinado o anarquismo em muitos países por décadas. Se bem que é certo que com os erros e fracassos alheios também se aprende, mas tal coisa é de todo inútil se primeiro não se aprende com os próprios erros e fracassos.

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